Chamaram-na de flor, a última das que brotaram nos entornos da bota do velho mundo. Tantas vezes foi musa de versos e prosas, mas é ponte à paisagem, não o paraíso em si. A verdade é essa, por mais que me doa dizer. Dói-me porque a amo, inculta, tal qual disse o poeta que venerou teus trejeitos. Os caminhos que determinastes para os sons das nossas idéias são tão belos! És imponente castelo de paredes erguidas e imóveis. Ocorre de alguém querer trocar-lhe um ou outro tijolo. Ah, com isso não poderei jamais concodar, o castelo deve ficar ali, intacto, imóvel, imune ao tempo. Um tijolo muda muito, tira o dente que enfeita o teu semblante e te compadecerás. Mas já estou eu chamando a flor de castelo, logo ela que é a última. Não por isso, na verdade. Mas ela me permite pensar assim. Eis o assunto dessas minhas letras, ela: a ponte, a flor, o castelo. Ela ordena as idéias de quem nasceu no florão da América ou aquém do Bojador. Ou mais ainda, de quem, vencido os mares, ouve as vozes dos mulatos mundo afora. Já é norte quando olha-se também os amarelinhos que se tocam pelo seu esplendor rude e doloroso. Eu passeio pelas palavras do poeta porque me emocionam, não porque sejam belas, mas porque se dedicaram a pensar e enaltecer o caminho. Fala-se tanto em chegar, há quem olhe para o que se passa abaixo dos pés. Que belo caminho temos! Mas fico eu aqui pensando na limitação que isso tudo trás. O nosso pensamento só vai até onde nosso idioma permite. Quantos pensamentos não são pensados porque não há como concebê-los? Temos um universo alejado em nossas mentes. Empurra o peso na cadeira o idioma. Depende dele o caminho por onde vamos. Se ele não puder nos ajudar, morrem ali os nossos novos lampejos. Quantas palavras não existem, meu Deus. E o quanto isso é importante, ou é apenas um dizer florido que me escapou? Tem pensamento que é assim, percorre a nossa vida, nasceu na infância, vez ou outra vem dar um alô. As vezes se torna algo que se escreve, mesmo que não esteja nem perto de estar ali nas letras o que se pensou. Mas tudo bem, o que queria dizer é isso, mas que armadilha essa nossa bela. É o machado que decide o que o marcineiro entorna no tronco da árvore caída. Queira ele um armarinho ou um pilão, o machado esculpe algo que passa perto do que pensou o artesão.


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