sábado, 22 de novembro de 2008

Florido

Chamaram-na de flor, a última das que brotaram nos entornos da bota do velho mundo. Tantas vezes foi musa de versos e prosas, mas é ponte à paisagem, não o paraíso em si. A verdade é essa, por mais que me doa dizer. Dói-me porque a amo, inculta,  tal qual disse o poeta que venerou teus trejeitos. Os caminhos que determinastes para os sons das nossas idéias são tão belos! És imponente castelo de paredes erguidas e imóveis. Ocorre de alguém querer trocar-lhe um ou outro tijolo. Ah, com isso não poderei jamais concodar, o castelo deve ficar ali, intacto, imóvel, imune ao tempo. Um tijolo muda muito, tira o dente que enfeita o teu semblante e te compadecerás. Mas já estou eu chamando a flor de castelo, logo ela que é a última. Não por isso, na verdade. Mas ela me permite pensar assim. Eis o assunto dessas minhas letras, ela: a ponte, a flor, o castelo. Ela ordena as idéias de quem nasceu no florão da América ou aquém do Bojador. Ou mais ainda, de quem, vencido os mares, ouve as vozes dos mulatos mundo afora. Já é norte quando olha-se também os amarelinhos que se tocam pelo seu esplendor rude e doloroso. Eu passeio pelas palavras do poeta porque me emocionam, não porque sejam belas, mas porque se dedicaram a pensar e enaltecer o caminho. Fala-se tanto em chegar, há quem olhe para o que se passa abaixo dos pés. Que belo caminho temos! Mas fico eu aqui pensando na limitação que isso tudo trás. O nosso pensamento só vai até onde nosso idioma permite. Quantos pensamentos não são pensados porque não há como concebê-los? Temos um universo alejado em nossas mentes. Empurra o peso na cadeira o idioma. Depende dele o caminho por onde vamos. Se ele não puder nos ajudar, morrem ali os nossos novos lampejos. Quantas palavras não existem, meu Deus. E o quanto isso é importante, ou é apenas um dizer florido que me escapou? Tem pensamento que é assim, percorre a nossa vida, nasceu na infância, vez ou outra vem dar um alô. As vezes se torna algo que se escreve, mesmo que não esteja nem perto de estar ali nas letras o que se pensou. Mas tudo bem, o que queria dizer é isso, mas que armadilha essa nossa bela. É o machado que decide o que o marcineiro entorna no tronco da árvore caída. Queira ele um armarinho ou um pilão, o machado esculpe algo que passa perto do que pensou o artesão. 



sábado, 8 de novembro de 2008

Conversa de um lado só

Caminhas com teus passos certos, nem largos, nem ligeiros, como quem não erra. Teus olhos fitam algum lugar do horizonte, não me olhas, ignoras o meu pranto e a minha dor. Com qual despeito mudas assim a minha face, passas por mim a me ignorar? Que poder de estar aqui e em todo lugar, de entrar em todo espaço que há e transformar o que existe e o que não é. Te percebo e não te compreendo... Não entendo a tua forma, não sinto teu início ou o teu fim. Por natureza não podes não haver, serias até mesmo se nada fosse.  Reinas em estado de graça, sempre imune, sempre ávido. Se caio em teus braços e esqueço-me de agora, me conduzes pela mão a lugares que sonhei, ao que já vivi, a beijos que já beijei, ao amor que me é tão único e só. Como fumaça ou a taça de que me servi, me fazes qual a embriagada que se passa nos sentidos. Como é forte esse amor, que saudade me arrasa ao chão, que medo do que será! E se não for, o que virá? És o cavalheiro misterioso que seduz com flor de plástico. A moça encantada se entrega e depois vê que passaste e continuastes teu caminho, nos mesmos passos, mirando o mesmo horizonte, indiferente a quem te olha com maior atenção. E a moça já não é mais a mesma depois que te encontra, arrasada pelas marcas que deixastes em seu corpo que era ainda jovial. O que fizestes com o frescor da juventude? Com qual frieza passas assim sem dó pela cidade, pelas vilas, pelas casas, pelas vidas? Quantos amores deixastes no caminho, sem que te vires a olhar o que sobrou? No fim de tantos dizeres, ninguém nunca te entendeu, meu caro. Pouco se passou desde que a continuidade dos teus passos indiferentes foi questionada, e fostes retirado da condição de compreendido para a mais incógnita das variáveis desse todo que é - porque é, até que se saiba dizer algo a mais. Pobre de mim. Eu que te sinto, eu, que te admiro e te temo não compreender. Quero que me consagres, quero que me faças melhor. Quero, enfim, que passes! Tu que não és nem homem nem Deus, és tu o tempo que não entendo, não enfrento, sobre o qual nada posso fazer.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bem me quer



Infinitos os recantos
Infinitos são os cantos
Infinitos, mas nem tantos,
Os quebrantos que amarguei

Choro o pranto da saudade
Ausência tua, calamidade
Dependência e vaidade
O amor que eu conquistei

O cedro do olho teu
Mira o verde que há no meu
E meu peito já cedeu
O coração que eu te entreguei

Tua mão segura a minha
A certeza que eu já tinha
Ainda eu a menininha
Já te amava, eu bem sei...

domingo, 2 de novembro de 2008

Além



Fecha os olhos. Compreende-te apenas até onde estás compreendido, no limite do teu corpo. Além da tua pele, nada mais de ti. Permanece assim, cerrados os olhos. Teu coração bate, estás vivo. Sente o que é teu e te faz diferente da pedra imóvel. O silêncio ao teu redor e a escuridão que vislumbras te faz sentir o que eu não posso dizer. Observa, com cautela, e me diz sobre o desespero de pensar que nada mais és do que um elemento ou outro que se repelem ou se mutam, que se rearranjam. O teu amor incompreendido, o teu sereno perdão.. a tua dúvida, o teu querer, o teu quem sabe... pobre homem. Hoje choras pelos que já partiram, lamentas a decomposição de quem um dia já te amou. A chuva dessa tarde acompanha as lágrimas da saudade de quem levou a flor como presente ao que restou de alguém que já viveu. Eu rejeito o fim. Não concebo que acabem todos os meus amores e medos entranhados na água fétida de um túmulo. Que o meu amor, o meu grande amor, seja um vício meu, animal que sou. Não creio que o miserável assim o seja pela infelicidade de existir naquela hora. Ou isso ou Deus. Os dois juntos é que não pode ser. É, então, a ignorância humana que percorre os séculos e não permito que faça morada em minha cabeça. Ora, como pode rogar aos céus o mesmo homem que pensa onde estás, Senhor, quando vê a morte sufocar a criança faminta? Por que o homem pede perdão pelos pecados se não acredita que eles, perdoados, não nos fazem piores? Por que se aceita o teu oposto, se o mesmo crê que és único e supremo em tudo o que há? Nada que é humano me convence que é verdade qualquer que seja a face da luz. Mas nasci acolhida no manto branco que perfuma como os incensos de alecrim, e comigo segue a rama da uva. Um dia seremos milhões a ter a mesma fé, e não será, tenho fé, uma questão de fé. Saltará aos nossos olhos, a evidência por si se explica. Ocorre que é necessário um quinhão mínimo de amor entre os homens. A consciência branda não é comum, nem normal. Mas é tão fácil ver o mundo daqui... Não é mais fácil viver, humana que sou e estou. Mas ver, sim, o é. Entendo melhor o que me cerca, aceito a lógica dos fatos e posso até prever o que me aguarda. E posso, mais que qualquer coisa, escolher o caminho do amor. Escolher a flor ao espinho. Ter um milhão de amigos e nenhum dobrão. Hoje eu choro de saudade de quem voltou pra casa. Eu um dia voltarei também. Eu e todo mundo. E quero olhar pra traz e pensar que fiz o que me propus, subi os degraus que devia. Quero ter a certeza que sempre escolhi o que a terra não traduz no verde novo, disse o poeta. Escolhi os que me amaram, os que amo com tamanho fervor. Escolhi a verdade e a doação do meu tempo. Escolhi a vida, escolhi o certo, escolhi não me arrepender. Escolhi me arrepender. Escolhi o que o melhor de mim pode dar. Observo o lamento desses corações que se apóiam no frio mármore que guarda o que ali jaz. Um dia lamentaremos menos. Que se lamente o que somos nós, porque os que se escaparam deste exílio voltaram ao verdadeiro lar de quem é humano. O barco que já cruzou o horizonte encontrou o cais a aguardá-lo, e este, o cais, é o grande mistério desses que somos nós os exilados.