segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Terra seca



Questiono-me se quando a noite vem e os olhos cerram-se, há, quem sabe, uma pequena luz no fundo dessa alma. Quando pende o peso da consciência sobre o macio dos panos brancos, a porta da alcova termina o dia num feixe de luz por onde ela pode ver ainda um pouco dos detalhes do seu redor. A escuridão lhe parece mais segura, pois a meia-luz traz rostos e movimentos que se confundem com os próprios monstros que alimentou durante o dia. Aliviada, lateja o corpo cansado e a mente embreagada gira mais devagar. O sangue corre forte, encontra barreiras mas segue no fluxo enlouquecido de um coração nervoso. O peito abriga a mágoa, a inveja, a solidão. Conhece-se bruto e infeliz. Mas sustenta a face do bom no sono dos justos. Mas não me engane que no silêncio do teu momento não percorre teu pensamento a versão que empenhaste em estandarte ao lado da nua verdade, inalterada, mesmo que ainda tu, pobre criatura, acabes por nela acreditar. Que belo jardim que plantastes, porque cuidates tanto das ervas daninhas? As pragas cultivastes para devorar flores alheias, na tua terra seca nada crescia. Não cuidastes da água escassa e os teus vales são de sombra, não há vida ao teu redor. Te alivia quando calam os passarinhos do quintal que não é teu, mas não cuidas do teu ninho e um bichinho igualzinho já aprendeu a ser assim. Que peso carrega esse coração, o que há dentro desse coração? Que amor te habita as entranhas, o que te faz melhor aos meus olhos do que a figura que eu vejo diante de mim? Como posso apostar tão pouco no brilho desse olhar vazio? Perdão, meu Deus, queria habitar já outras esferas, perdoar para assim me entendas, mas a ofensa e o desprezo ainda me parecem mais próximos da sinceridade dos meus pensamentos do que os anceios de merecer algo melhor. Que lamento inexistente, meu Deus. Como posso, em silêncio, abençoar a fenda que se firmou e partiu a terra seca em dois montes de pó? Que nada mais que pouco sou eu diante do prazer ao ver que te conflitas com teus próprios demônios, e vejo-se desesperada buscando as saídas da mentira? Tua vida é um vôo insano para que se apaguem as estrelas, teu brilho só assim aparecerá. Ilusão de um pequeno coração, que tão pouco quis aprender, e nada tem a ensinar. Eu despejo a minha raiva na forma sonora das palavras, e poucas vezes estivestes em tão boa vestimenta. Meu peito sinceramente chora no desejo de que a vida não fosse outra, fosse a mesma que é, que observássemos a nosso nanismo antes de que se delicie da réu agonizante. Essa felicidade que hoje sentes, tal heroína que é a mocinha da história, eu sei, encontra tua consciência. Sei, pois somos iguais, e por mais que meu orgulho desejasse que fôssemos diferentes e que eu me colocasse a parte da tua mesma natureza humana, a verdade é que somos iguais. Tu com teus desejos de sugar o sangue dos que queres ver no chão, e eu por não poder disfarçar a alegria por saber que tua ausência será presente, e nada indica sinal de volta. Não te desejo a sombra, tilha o caminho do sol, aquele cercado pelas flores que preferes ver mortas ao longo do caminho, se este não é o teu. Perdão, meu Deus, eu me esforço, mas a sinceridade dos meus pensamentos me mostram a escancarada face de um abismo que não me cativa a percorrê-lo, e mesmo sabendo que o caminho só continua se for cumprido, não me chama o outro lado. As tuas palavras ecoam pelo espaço buscando um alvo, vez ou outra derruba um. Mas qual será tua angústia se todos os jardins ficassem mudos, mortos, devastados pelas bombas que jogas ao teu prazer? O que irás, agora, cuidar como o teu? Não sobrará nada perto de ti se não tu mesma, e sem ninguém mais para perturbar a vida que se segue, tratarás de correr, atrás de outra vítima que não seja outra carniça que já usastes pra te sentir feliz. Pobre criatura, o peso do teu coração inflado de raiva só não se compara ao fardo de te carregar vida a fora por obrigação, manto do amor cobrindo-lhe as faces. Deus me perdoe por tamanho desgosto por sentir esse não bem querer. Não me perturbas, eu te quero longe mas os teus gritos nunca me chegaram a mais de meio metro do chão. Se cuidastes em envenanar um outro ninho, tua missão acabou, pois hoje somos pássaros a voar muito mais longe. Eu queria um dia poder te amar, mas hoje o melhor que posso oferecer é o meu não e o meu silêncio, a minha distância e de toda culpa o meu quinhão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Das suspensas pequenas partes

Mais uma madrugada me consome as energias. Penso onde teria guardado o cansaço que me pesava os ombros. Já não sinto. Fechar os olhos e esperar o amanhã me parece um desperdício maior do que as odiadas sacolinhas. O enlouquecedor intervalo da goteira parece feliz em me torturar, e percebo que já ensaia novos ritmos. Nem o passarinho incomoda tanto em barulhinho. Pobres janelas daquele lugar, que suplicio lamentar-se por servir de lenço, ombro e capacho. Mas não vem ao caso, o que pensei antes era melhor do que minha mente é capaz de compilar. E o que isso tem a ver com o que eu ia começar? A visão me remete à casa verde e rosa da Carolina, onde a areia está quase toda do lado de baixo. Quantos outros surgem, alucinados como o que entra em transe. No que se transformam os lamentos de uma vida? Tímpanos calejados, é chegada a hora de entregarem-se também os olhos encapados. Ainda giram sem sentido, se esbarram e se aglutinam esses pensamentos meus. A página do calendário já repousa entre os passados, mas não me percebo ainda como o hoje que findou e o amanhã que já passou. Certo é que a música do silêncio dita o ritmo do movimento que acontece aqui dentro, e aos poucos, os sedimentos se depositam no fundo. Alguns soltos ainda giram, dispersos e lentos. Talvez a outra mesmo durma, coitada, e quem aqui fala é uma lusitana de vasta idade e culpa, pouco amada, nada observada, a não ser por seus fantasmas. Não necessariamente uma, um senhor cheio de ranços e apegos também canta em fado o que de fato vê. Sejam lá quem sejam os que me desenham a página: meus pensamentos ou de alheios, que cigarro eu fui inventar! O sol se arqueou céu afora, e tanto pensei no que a flor do asfalto terá a observar que me cansei de tanto pensar. O que pensou depois que o violão calou... É assunto pra ano ou mais, chega, eu me rendo, eu vou dormir.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

No lombo da girafa

Desce daí e te arruma depressa, já é hora de acordar, a girafa quer partir.
De que te adianta o medo da girafa?
É negar o fogo diante da fumaça.
Tens a mesma pressa de quem te interpreta.
Tudo bem os julgamentos, quando o réu não tem teu nome.
Não é girafa, menina, é só um pangaré.
Teu circo precisou de tanto pra se erguer!
Mas só água, sabão e silêncio já trazem a tua cara de volta.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O colecionador


Dançam os dedos do rapaz pelas cordas do violão, que vibram a produzir melodias que tocam em sua mente. O som que produz acalma o seu semblante estrangeiro. Não precisam de grandes impulsos os seus pensamentos, livres que são, se lançam na imensidão. Alcançam o espaço e ainda vão mais além, buscam no infinito uma resposta, quem sabe um sinal. Bastava tão pouco. - Sim, estamos aqui. E já mudaria tudo. Mas se o pensamento que varre o universo e na busca por vida inteligente nada encontra, o tom muda e a melodia já é outra. Vê o céu azul e o dia claro, guarda a casa na mochila e ganha o mundo sobre a velha bicicleta, companheira das tardes quentes e das noites frias. Ah, como ele fica feliz quando a chuva cai fininha e refresca o dia! Respira fundo e o aroma da terra entra-lhe nariz a dentro, preenche sua alma aventureira. Os pensamentos movidos pela correia, cada vez mais velozes, ou cada vez mais lentos. Depende do dia, depende do amor. Depende da hora. E já outro pensamento de formou. Futebol no domingo, calor humano, paixão e dor, descarrega e grita gol. A vida colorida, nem sempre preenchida, de quem sente falta de não sabe o quê. Se observado atrás da solução, haja borracha, haja calculadora. Triste daquele professor. Volta das fantasias onde extermina o pobre mestre, e continua seu labor. Encontra a incógnita e a mira. Encontrei! Ah, mas que satisfação. Que bom seria se pesasse alguma coisa, doeria se arremessada com força no doutorzinho meia-boca que o desafiou naquela lista interminável. Mas que fiquem os confusos dias universitários de lado, não será por essa engenharia que entenderemos a estrutura de sua alma curiosa. Quem pudesse entrar nesse coração e ver as fotografias todas ali. As anotações, as músicas. Quantos segredos, quantos amores, quantos medos registrados. E as gafes? Os desenhos, as vontades. O bom humor. Que vasta e rica biblioteca bate nesse peito - e com recursos audiovisuais. Eu te vejo como a flor que brotou do asfalto. Levas no teu rosto a lembrança dos teus ídolos. Vejo um pouco do Manoel, doce e sereno, emotivo, cândido. Risonho, caridoso, amigo. Vejo a expressão do Placidino. Curioso, firme, rápido, comedido. Bom moço, bom garoto, grande homem. As lentes dos teus óculos ajudam o que teus olhos não conseguem ver sozinhos. Ajustado o foco, enxergas a alma das pessoas, o seu momento, a beleza do tédio, a poesia do velho. A força da natureza, uma alegria, uma tristeza. Um amigo ali, uma prima aqui, um avô cheio de assunto. O doce Ribeirão da Ilha, onde o tempo pára e o mar faz adormecer a mente inquieta de quem guarda no coração as imagens que observou. Mas que sorte tenho eu, que além de primo e amigo ganho a versão leitor assíduo. É tanto carinho que me faz envergonhar, principalmente ao lembrar que se alguma coisa aconteceu dentro de mim e que despertou as palavras, tão certo deve ser que vi em algum canto a visão que teve de alguém, ou de algum lugar. Só me resta agradecer por me deixar aberta a porta da tua coleção. Amado amigo, que feliz eu fico em lembrar da leveza desse rosto fazendo parte dos meus dias. Peito aberto, rosto sério, aqui mais um Eleutério, falando do gosto de te ouvir.

domingo, 5 de outubro de 2008

As nossas caras queimadas

Sebastião Salgado, Etiópia.



Os pés feridos pelo calor da terra não sentem mais a dor, ela se faz presente na criança contorsida pela fome. O sangue que lhes deve escorrer parece a água que não brota do chão, passeia livre por entre a aridez da pele rachada que revela o interior do corpo sujo e contaminado. Sobre seus corpos esguios, cheira a podre o manto fétido que se cobrem. É o odor dos engulhos humanos, do que a pele fraca ainda consegue expelir. É o odor do calor, do suor de quem da água se delicia para matar a sede que fecha a garganta e os impedem de falar. Cheiram a animais - como se não fossem. As moscas lhes pousam sobre as faces, buscam os restos do resto que comeram. Pensam pouco, lhe restam os extintos. Um olha pra trás, mas guia o bando a criança, olhando o chão. Também pouco pensa, sente-se a flutuar no equilíbrio de seus ossinhos. Andam devagar, sem pressa, a vida é curta, e não há o que aproveitar. Vejo beleza na imagem que me desperta vergonha. Meu Deus, que desassossego diante a esperança que escorreu pelo ralo e não volta mais. Que angústia ao te pedir perdão por pensar assim. O pensamento corre e se espatifa num muro alto, pelo qual não vejo mais nada. O que estamos fazendo... que miserável é o animal que pensa. Há tempos tiramos a santa do altar. Adoramos o poder, o dinheiro, o poder do dinheiro. Moldamos nossas vidas de forma a merecermos o dinheiro, mais e mais dinheiro. A lei permite, estamos legitimados, e não há motivos para não pensar na honestidade de se ganhar quando fruto do trabalho honesto e honrado. Não sente culpa, o cidadão. Impostos em dia, diploma na parede, os meninos não tem do que reclamar. Tudo azul do outro lado do mundo. Nem precisa ir tão longe.. logo ali os donos do óleo da pedra vivem a beleza da arquitetura futurista, que enxem os olhos, e dão orgulho aos que não tem nada a ver com isso. Quantos sonham em conhecer as maravilhas das ilhas desenhadas, e todo o entorno fantástico daquela riqueza toda. Mas não falemos dos extremos, não dizem muito. O cidadão comum, daqui e de lá, de qualquer lugar. O homem igual ao pobre que vaga pelas areias. Tira-lhe o couro, não diferenciarás um do outro. Onde fica o valor do homem? Conversa sem fim, essa. Penso que isso não há, valor, que se possa atribuir mais a um do que ao outro. O santo que subiu ao lado de Deus e o assassino inescrupuloso são da mesma natureza. São seres humanos, iguais, e se hoje estão nas diferentes escalas da evolução, o santo já matou algum dia, e o altar espera o assassino. O que nos tornará iguais um dia é o tempo. Pois se não há os condenados perpétuos nem os escolhidos para viver na felicidade, somos todos, enquanto humanos que somos, iguais na natureza. Os homens que nos revelaram a vida de depois nos avisam de quão pouca evolução sustentamos, e o tempo de uma vida não vale para entendermos tudo. Presos e exilados da condição humana de liberdade e entendimento, passamos nossas vidas, desde o início, emoldurando-a de tal forma que possamos dignamente ganhar nosso santo e sagrado dinheiro. Ele, que nos alegra, nos enxe os olhos, que traz a felicidade. O dinheiro. E não há como não ser, os outrs sitemas não funcionaram, e se viveram, foi às custas do sangue derramado. Nenhum homem, de lugar que seja, se gaba do comunismo se uma arma não lhe aponta as ventas. Por maravilhosa que seja a idéia contida na semente que se jogou na terra, não é possível que viva, não há como praticá-lo. Sustenta esse sistema um nível mínimo de moral que nós não temos. O último a sair é o novo gigante capitalista, às custas do trabalho escravo de um povo doutrinado que reclama pouco. Os que reclamaram não podem mais falar. Estão na lista dos ancestrais, já. O gigante dragão vermelho devora as energias do seu povo. E faz dinheiro, mais e mais dinheiro. A ilha perdida do velho general se conserva como se tivesse sido tragada pelas forças estranhas do Triângulo das Bermudas - sabe-se lá o que se passa por lá. Mas sabe-se o que não passa: o tempo. Vivem nos mil novecentos e depois da guerra. O homem se deu poder e tirou o dos seus iguais. Não terás nada além dos outros. Essa é a lei. Todos iguais, em sonhos e em posses, pois só isso vale. Iguais em posses, iguais em possibilidades. O preço da liberdade é o remédio garantido, é o bom doutor. Escolas que não faltam. Meu Deus, mas e daí? Que vida miserável é essa a da terra prometida, que nem da ilha se pode sair. O general velho de guerra, mentiroso, doente, insano. Os seus seguidores sãos e a massa ignorante que grita vivas ao lider absurdo. E o que dizer das novidades? Das novas tentativas de igualar os homens, de verticalizar o poder que emana do povo - não emana do povo? Se for de outra forma, emanará de Deus? Tantos são os exemplos da ignorância de quem pensou representar o criador. A tentativa daquele que não se calla, que grita, ignorante, a sua vontade aos quatro ventos. Os donos do gás. Os arredores, ignorantes, mal começados, mal acabados. O nosso operário que tinha preço, sim. Onde está o erro? O erro está em todos, está dentro da mente doente de cada um que se reconhece humano. Mas de que vale o rateio da culpa se nascemos com tudo pronto, que força temos diante dos gigantes? É justo esse rateio da culpa? Acredito nas palavras dos homens da terceira revelação. Acredito que fora da caridade não haverá a salvação dos homens. O pensamento que me guia não fica mais à parte do que aprendi nos livros. Não pode ficar. Mas então, como pensar na caridade como a solução? Toda a gente se organizou de forma a ratear os gastos daquilo que deve ser público. Trabalha-se, já, muito a mais para sustentar a coisa toda. E ainda cobra-se do cidadão a doação espontânea, já que seu dinheiro escoou para a mão dos que valem muito pouco - por isso o preço é baixo. A culpa é entornada goela a baixo. A caridade que homens de lá nos falam não é isso. Não acredito, eles não se referem a isso. Às doações, ao tempo cedido, não. Isso não pode ser. Nossa limitação de idéias e de palavras forçaram usar a palavra que já existia para resumir o maior ensinamento, o de amar o próximo como amamos a nós mesmos. Essa é a caridade que salvará o mundo. De que forma ela se manifesta, pouco importa. Só é a verdadeira caridade aquela que não satisfaz a vaidade humana. Pouca gente conheceu o caminho da salvação, então. Começar a caminhada é para séculos a partir daqui. Esse é o mundo que merecemos. Nossas caras estão queimadas não pelo aspecto da cor, que inspirou o nome do país miserável. Nossa cara é queimada pelo fogo da ignorância que nos torna cegos, surdos, mudos. Mas há um caminho.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Carta da bonança

Se eu pudesse te contar tudo o que se passou desde que fostes embora... Parece que não faz tanto tempo assim, mas dois anos se completam hoje! Soube que raiava o dia, o sol já se espreguiçava por entre as nuvens. O canto dos passarinhos recepcionou os teus amigos, que vieram ao teu encontro, te levar pela mão. Deixastes as roupas que usavas, e acredito que depois de apontares para o céu enquanto suspiravas, aliviada, fostes envolvida por um pouco de sol que te achou por entre a fresta da janela. Aquele solzinho de inverno ainda, quentinho, aquela cor da manhã. Cheirinho de roupa limpa, o solzinho a te embalar... a mente leve como nunca havia estado, e nada a fazer se não se entregar a esse soninho que fechou os teus olhos. Desde esse dia, eu só te encontro nos meus sonhos... E tudo o que aconteceu contigo depois é um mistério pra mim. E tanta coisa aconteceu por aqui.. Choveram tantos dias e tantas noites, Bruna... e eu sei que a tempestade te assustou. A água caía com força, e encontrava caminhos que antes não existiam. Lavou esta terra, e continuou a cair, por mais noites tantas. As vezes eu não percebia mais o barulho da chuva, que insistia nos meus ouvidos. Acostumei-me a olhar pela janela e ver o mundo cinza, a tespestade que não cessava, mais forte a cada vez que encarada. A tormenta a girar sobre nossas cabeças só era interrompida pelo susto do relâmpago, que rompia o céu com força e iluminava a escuridão em lampejos, lembrando da luz que não se via mais por trás da nuvem de chuva. O estrondo da luz que rompe a tempestade faz pulsar o coração, e mostra, ao longe, que aos poucos as nuvens se desfazem com a brisa suave. Ainda é fraquinho, mas sopra, e continua, firme, preciso. Percorre as rebarbas da escuridão, sopra o temporal pro mar. E continua na sua missão - ele, um vento... o tempo! Chega soprando de leve sem a gente perceber. Devagarinho as nuvens foram clareando, e que surpresa, os passarinhos já cantavam. Uma e outra flor desabrocharam, curiosas, aproveitando a trégua da noite. Não falemos da escuridão, mas como ficam belas as nossas flores quando são iluminadas pelo sol! As sombras vão embora, o verde volta a governar. O céu azul é o mesmo que tens aí, pertinho de ti. Eu consigo ver de longe! E sem as nuvens pesadas e carregadas de chuva, mesmo quando o dia se recolhe e a noite traz a escuridão, o céu se completa de estrelas, essas mesmas, que também olhas. Isso tudo porque o tempo continua seu caminho, ele que é mais forte que todos nós. E o tempo vai continuar, ele não pára... e vai, que Deus permita, me marcar ao longo da viagem... vou envelhecer, aproveitar esta terra, esta escola, e por todo o meu caminho, levarei dentro de mim a lembrança presente desses olhos marcantes, que tanta coisa devem ter visto depois da tempestade. O frescor da tua juventude vai preservar tua beleza intacta na minha memória. Lábios cor da rosa, cabelos cor do ébano, pele branca como a neve. A descrição de uma princesa, de uma menina, dos sonhos de menina que me acompanharão ao longo da vida. A delicadeza dos teus gestos, o sorriso que se entrega, a confusão. A nossa cumplicidade, os segredos que me cofiastes, o carinho, o amor. A adoração que tinhas por mim, minha amiga, que lembrança valiosa. As nossas conversas sem fim. Os teus apelos, os meus consolos. A tua rebeldia, a tua culpa, a tua carência. O teu sonho. Os teus. Querida, nada disso vai enfraquecer com o tempo. Estará tudo em mim, guardado, cuidado. Lembrança de um início de juventude, alegre, feliz, inesquecível, que não faz parte do meu passado, faz parte da minha vida. Tua trajetória de cometa me atingiu em cheio, me fez cair de joelhos. Diante de mim, a evidência: de que é feita esta vida senão da vida bem vivida? Arrumei o leme do barco, apontei pro amor. Ah, coragem, que me falta... Fé, tolerância. A vida está aqui ao redor! Tu me ensinaste tanto, talvez como nunca mais ninguém mais. Obrigada por gostar tanto de mim, e por ter me ensinado tantas coisas. Esforço-me todos os dias para viver a felicidade que tu encontravas em tudo. O tempo vai me transformar, mas a menina Bruna vai me acompanhar até o sempre.