domingo, 2 de novembro de 2008

Além



Fecha os olhos. Compreende-te apenas até onde estás compreendido, no limite do teu corpo. Além da tua pele, nada mais de ti. Permanece assim, cerrados os olhos. Teu coração bate, estás vivo. Sente o que é teu e te faz diferente da pedra imóvel. O silêncio ao teu redor e a escuridão que vislumbras te faz sentir o que eu não posso dizer. Observa, com cautela, e me diz sobre o desespero de pensar que nada mais és do que um elemento ou outro que se repelem ou se mutam, que se rearranjam. O teu amor incompreendido, o teu sereno perdão.. a tua dúvida, o teu querer, o teu quem sabe... pobre homem. Hoje choras pelos que já partiram, lamentas a decomposição de quem um dia já te amou. A chuva dessa tarde acompanha as lágrimas da saudade de quem levou a flor como presente ao que restou de alguém que já viveu. Eu rejeito o fim. Não concebo que acabem todos os meus amores e medos entranhados na água fétida de um túmulo. Que o meu amor, o meu grande amor, seja um vício meu, animal que sou. Não creio que o miserável assim o seja pela infelicidade de existir naquela hora. Ou isso ou Deus. Os dois juntos é que não pode ser. É, então, a ignorância humana que percorre os séculos e não permito que faça morada em minha cabeça. Ora, como pode rogar aos céus o mesmo homem que pensa onde estás, Senhor, quando vê a morte sufocar a criança faminta? Por que o homem pede perdão pelos pecados se não acredita que eles, perdoados, não nos fazem piores? Por que se aceita o teu oposto, se o mesmo crê que és único e supremo em tudo o que há? Nada que é humano me convence que é verdade qualquer que seja a face da luz. Mas nasci acolhida no manto branco que perfuma como os incensos de alecrim, e comigo segue a rama da uva. Um dia seremos milhões a ter a mesma fé, e não será, tenho fé, uma questão de fé. Saltará aos nossos olhos, a evidência por si se explica. Ocorre que é necessário um quinhão mínimo de amor entre os homens. A consciência branda não é comum, nem normal. Mas é tão fácil ver o mundo daqui... Não é mais fácil viver, humana que sou e estou. Mas ver, sim, o é. Entendo melhor o que me cerca, aceito a lógica dos fatos e posso até prever o que me aguarda. E posso, mais que qualquer coisa, escolher o caminho do amor. Escolher a flor ao espinho. Ter um milhão de amigos e nenhum dobrão. Hoje eu choro de saudade de quem voltou pra casa. Eu um dia voltarei também. Eu e todo mundo. E quero olhar pra traz e pensar que fiz o que me propus, subi os degraus que devia. Quero ter a certeza que sempre escolhi o que a terra não traduz no verde novo, disse o poeta. Escolhi os que me amaram, os que amo com tamanho fervor. Escolhi a verdade e a doação do meu tempo. Escolhi a vida, escolhi o certo, escolhi não me arrepender. Escolhi me arrepender. Escolhi o que o melhor de mim pode dar. Observo o lamento desses corações que se apóiam no frio mármore que guarda o que ali jaz. Um dia lamentaremos menos. Que se lamente o que somos nós, porque os que se escaparam deste exílio voltaram ao verdadeiro lar de quem é humano. O barco que já cruzou o horizonte encontrou o cais a aguardá-lo, e este, o cais, é o grande mistério desses que somos nós os exilados. 

Um comentário:

Rafael Vidal Eleutério disse...

tragam o nobel,
a mari se superou.