sábado, 8 de novembro de 2008

Conversa de um lado só

Caminhas com teus passos certos, nem largos, nem ligeiros, como quem não erra. Teus olhos fitam algum lugar do horizonte, não me olhas, ignoras o meu pranto e a minha dor. Com qual despeito mudas assim a minha face, passas por mim a me ignorar? Que poder de estar aqui e em todo lugar, de entrar em todo espaço que há e transformar o que existe e o que não é. Te percebo e não te compreendo... Não entendo a tua forma, não sinto teu início ou o teu fim. Por natureza não podes não haver, serias até mesmo se nada fosse.  Reinas em estado de graça, sempre imune, sempre ávido. Se caio em teus braços e esqueço-me de agora, me conduzes pela mão a lugares que sonhei, ao que já vivi, a beijos que já beijei, ao amor que me é tão único e só. Como fumaça ou a taça de que me servi, me fazes qual a embriagada que se passa nos sentidos. Como é forte esse amor, que saudade me arrasa ao chão, que medo do que será! E se não for, o que virá? És o cavalheiro misterioso que seduz com flor de plástico. A moça encantada se entrega e depois vê que passaste e continuastes teu caminho, nos mesmos passos, mirando o mesmo horizonte, indiferente a quem te olha com maior atenção. E a moça já não é mais a mesma depois que te encontra, arrasada pelas marcas que deixastes em seu corpo que era ainda jovial. O que fizestes com o frescor da juventude? Com qual frieza passas assim sem dó pela cidade, pelas vilas, pelas casas, pelas vidas? Quantos amores deixastes no caminho, sem que te vires a olhar o que sobrou? No fim de tantos dizeres, ninguém nunca te entendeu, meu caro. Pouco se passou desde que a continuidade dos teus passos indiferentes foi questionada, e fostes retirado da condição de compreendido para a mais incógnita das variáveis desse todo que é - porque é, até que se saiba dizer algo a mais. Pobre de mim. Eu que te sinto, eu, que te admiro e te temo não compreender. Quero que me consagres, quero que me faças melhor. Quero, enfim, que passes! Tu que não és nem homem nem Deus, és tu o tempo que não entendo, não enfrento, sobre o qual nada posso fazer.


2 comentários:

Rafael Vidal Eleutério disse...

um autêntico don juan mirrado.


se foi uma viagem na imagem...
então tu conseguiu???

:D

bjo, mari!

Mariana Ribeiro disse...

na verdade... algumas palavras ao tempo!