terça-feira, 6 de abril de 2010

Suspiro num fim de tarde


É como se a tempestade pudesse mirar a nuvem branca, calma e calada, e sentisse vontade pincelar uma meia dúzia de sons. Guardar em versos os sentimentos que surgem, os que voltam, os que nunca são ausentes. As palavras chocam-se uma nas outras e como em água turva demoram a precipitar - e o tempo pra água parar? Parei. Senti a tarde longa, o sol girar, o dia aquecer. Não é preguiça, não é má vontade, é vontade de pensar, de sentir o aroma do dia, de ser simples e sentir o tamanho do tempo.

domingo, 3 de maio de 2009

Nós

As flores vermelhas assistiram a noite estranha ceder lugar ao dia, e aqui eram nuvens que rodeavam-se anunciando a tempestade. Pouco se viu do sol lá fora, mas o ar pesado era quente e as palavras não tinham força para atravessá-lo. O chão nos atraía mais, os olhares não se cruzavam e o silêncio era ruim. O beijo era de ontem, ainda. O hoje não era ainda nosso, e as flores não tinham culpa por exalar o cheiro do vazio de quem não era bem-vindo. Foi quando os olhares se cruzaram e, num abraço, o amor soprou os ventos pra longe e os raios de sol invadiram nosso lar. Nesse abraço eu sorri e ouvi sobre o teu medo. E num beijo, o amor venceu.

sábado, 2 de maio de 2009

Vento sul


Outrora o céu azul e os passarinhos, o verde vibrande dos morros e a doçura da areia que me serviu a construir o meu castelo... hoje faz-se nuvem, e a força do vento levou tanto! Que lamento pelos dias que não voltam mais, pela tranquilidade de uma brisa serena que acalanta a menina. Que saudade do sol, do cheiro das manhãs, das flores do caminho.. a tempestade levou o caminho, e que era tão certo e sólido se despedaçou. Ponho a culpa no vento sul, ele que se faz tão longe e vem misturar tudo por aqui. Saudade de uma felicidade infantil que não volta mais. Vontade de abraçar e sentir só o que se deve sentir, sem os entulhos que a tormenta espalhou. Quanta bobagem. Saudade do azul intenso me olhando, sem nada a pesar no coração. 


terça-feira, 31 de março de 2009

Alecrim

Palavras simples ao indagar as borboletas, que, fartas de si - pegajosas e cheias de veneno, partem aos ares entres flores e aromas, passarinhos e raios da manhã. Sentimento raro esse de se libertar ao tão maior do que se é... quanto céu para voar, quantos campos, infinitos.. quantas flores! Ah, chegou o tempo de encontrar-me comigo, enfrentar o mundo, voar atrás de abrigo, algum açúcar, uma flor que me cai bem. E se encontro tudo isso em ti, meu amor... me enlaço então nas tuas asas e o céu nos assiste..

sábado, 22 de novembro de 2008

Florido

Chamaram-na de flor, a última das que brotaram nos entornos da bota do velho mundo. Tantas vezes foi musa de versos e prosas, mas é ponte à paisagem, não o paraíso em si. A verdade é essa, por mais que me doa dizer. Dói-me porque a amo, inculta,  tal qual disse o poeta que venerou teus trejeitos. Os caminhos que determinastes para os sons das nossas idéias são tão belos! És imponente castelo de paredes erguidas e imóveis. Ocorre de alguém querer trocar-lhe um ou outro tijolo. Ah, com isso não poderei jamais concodar, o castelo deve ficar ali, intacto, imóvel, imune ao tempo. Um tijolo muda muito, tira o dente que enfeita o teu semblante e te compadecerás. Mas já estou eu chamando a flor de castelo, logo ela que é a última. Não por isso, na verdade. Mas ela me permite pensar assim. Eis o assunto dessas minhas letras, ela: a ponte, a flor, o castelo. Ela ordena as idéias de quem nasceu no florão da América ou aquém do Bojador. Ou mais ainda, de quem, vencido os mares, ouve as vozes dos mulatos mundo afora. Já é norte quando olha-se também os amarelinhos que se tocam pelo seu esplendor rude e doloroso. Eu passeio pelas palavras do poeta porque me emocionam, não porque sejam belas, mas porque se dedicaram a pensar e enaltecer o caminho. Fala-se tanto em chegar, há quem olhe para o que se passa abaixo dos pés. Que belo caminho temos! Mas fico eu aqui pensando na limitação que isso tudo trás. O nosso pensamento só vai até onde nosso idioma permite. Quantos pensamentos não são pensados porque não há como concebê-los? Temos um universo alejado em nossas mentes. Empurra o peso na cadeira o idioma. Depende dele o caminho por onde vamos. Se ele não puder nos ajudar, morrem ali os nossos novos lampejos. Quantas palavras não existem, meu Deus. E o quanto isso é importante, ou é apenas um dizer florido que me escapou? Tem pensamento que é assim, percorre a nossa vida, nasceu na infância, vez ou outra vem dar um alô. As vezes se torna algo que se escreve, mesmo que não esteja nem perto de estar ali nas letras o que se pensou. Mas tudo bem, o que queria dizer é isso, mas que armadilha essa nossa bela. É o machado que decide o que o marcineiro entorna no tronco da árvore caída. Queira ele um armarinho ou um pilão, o machado esculpe algo que passa perto do que pensou o artesão. 



sábado, 8 de novembro de 2008

Conversa de um lado só

Caminhas com teus passos certos, nem largos, nem ligeiros, como quem não erra. Teus olhos fitam algum lugar do horizonte, não me olhas, ignoras o meu pranto e a minha dor. Com qual despeito mudas assim a minha face, passas por mim a me ignorar? Que poder de estar aqui e em todo lugar, de entrar em todo espaço que há e transformar o que existe e o que não é. Te percebo e não te compreendo... Não entendo a tua forma, não sinto teu início ou o teu fim. Por natureza não podes não haver, serias até mesmo se nada fosse.  Reinas em estado de graça, sempre imune, sempre ávido. Se caio em teus braços e esqueço-me de agora, me conduzes pela mão a lugares que sonhei, ao que já vivi, a beijos que já beijei, ao amor que me é tão único e só. Como fumaça ou a taça de que me servi, me fazes qual a embriagada que se passa nos sentidos. Como é forte esse amor, que saudade me arrasa ao chão, que medo do que será! E se não for, o que virá? És o cavalheiro misterioso que seduz com flor de plástico. A moça encantada se entrega e depois vê que passaste e continuastes teu caminho, nos mesmos passos, mirando o mesmo horizonte, indiferente a quem te olha com maior atenção. E a moça já não é mais a mesma depois que te encontra, arrasada pelas marcas que deixastes em seu corpo que era ainda jovial. O que fizestes com o frescor da juventude? Com qual frieza passas assim sem dó pela cidade, pelas vilas, pelas casas, pelas vidas? Quantos amores deixastes no caminho, sem que te vires a olhar o que sobrou? No fim de tantos dizeres, ninguém nunca te entendeu, meu caro. Pouco se passou desde que a continuidade dos teus passos indiferentes foi questionada, e fostes retirado da condição de compreendido para a mais incógnita das variáveis desse todo que é - porque é, até que se saiba dizer algo a mais. Pobre de mim. Eu que te sinto, eu, que te admiro e te temo não compreender. Quero que me consagres, quero que me faças melhor. Quero, enfim, que passes! Tu que não és nem homem nem Deus, és tu o tempo que não entendo, não enfrento, sobre o qual nada posso fazer.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bem me quer



Infinitos os recantos
Infinitos são os cantos
Infinitos, mas nem tantos,
Os quebrantos que amarguei

Choro o pranto da saudade
Ausência tua, calamidade
Dependência e vaidade
O amor que eu conquistei

O cedro do olho teu
Mira o verde que há no meu
E meu peito já cedeu
O coração que eu te entreguei

Tua mão segura a minha
A certeza que eu já tinha
Ainda eu a menininha
Já te amava, eu bem sei...