Por entre as pedras, a menina corria enquanto seus cabelos seguiam os cantos do vento que vinha do sul. Seus olhos viam o carmim do céu quando poente, que pouco depois, cravado de estrelas, faziam pensar a menina o que eram os pontos de brilho que refletiam nas águas da baía. Seus dedos aprenderam o doce compasso que desenhava os trilhos brancos e engomados que enfeitavam a casa de sua mãe. Andava pela praia e sentia nos pés nus o frio da água plácida, que nutria os peixes que nutriam a todos daquele lugar. O sol, quando baixo, coloria os verdes e os azuis que contornavam a rua desgastada pelos carros de boi, por onde Carolina passava. O dia nascia calmo e morria calmo. Nas janelas, as mocinhas observavam a tarde passar, longa que era, trazendo consigo o aroma do café da hora. Os olhos de Carolina viam os temporais, que lavavam o mar e a alma daquela gente simples. O mar de prata fazia doer os olhos da menina, quando mirava para detrás da Ilha do Largo se o sol ainda era o do meio do dia. Via as gaivotas sobrevoando o pescador, e o ruído calmo da marola, como que beijasse as pedras. Desconhecia as mazelas do mundo, a fome por ali não havia. O rádio trazia as notícias da guerra para a casa de poucos. Não tinha medo, a Carolina, que conhecê-lo foi quando as vozes que a perseguiam ainda não se faziam compreender. As orações da santamadre e os cortejos não aliviavam suas agonias, e ela mal sabia que as seguiriam durante a vida. O medo deixou seu lugar para as ladainhas do nosso Senhor, que a menina Carolina faria valer como as outras benzedeiras. Tão logo havia crescido a Carolina, e já era a do Manoel. A moça dos parcos sorrisos trajava cedo o seu vestido de despretenciosos cortes, e dava de comer às galinhas, antes do sol despontar. Do ventre delgado da Carolina nasceram duas crianças, mas seu coração amou outra além. Vivia na lida do dia enquanto o Manoel consertava alguma coisa aqui e ali, ou deslisava suas mãos calejadas das canoas e dos formões sobre o violão. A tarde custava a findar, mas a noite sempre chegava com as janelas fechadas e o calor da água no fogo, a requentar a panela com as ostras para a farinha e o café passado que já repousavam sobre a madeira da mesa. Passaram-se os anos, e foram tantas as décadas. Os filhos de Carolina são velhos. Manoel escapou do já exausto corpo que o abrigara tantos anos, havia pouco tempo. O coração aperta de dor, e ainda produz lágrimas os olhos da velha Carolina - olhos que falham e irritam Carolina. Senta frente ao verde da parede de onde passou a vida e roga a Deus que se lembre dela. Já chega dessa vida. Viu tanto e viu nada, a Carolina. O mundo atrás do Cambirela, e tudo o que acontenceu lá enquanto ela tecia os trilhos brancos, não perturbaram a calmaria da freguesia bucólica. Que pode mais querer a Carolina, que se mira no espelho, face seu semblante sério e doce, mas não vê a pele marcada pelo tempo. A idade lhe consumira o vigor da vista, que consumia a paciência da velha Carolina. Ela que aprendeu a rezar tão cedo, a menina que conhecia os mortos, quer passar para o lado deles. Eles, que a acompanharam durante a vida. Já basta, é o que pensa a Carolina. Perto do mar nasceu Carolina. Perto do mar quer morrer Carolina.
domingo, 28 de setembro de 2008
sábado, 27 de setembro de 2008
Sobre amar-te
De outros amores eu tentei tirar o verso, mas não nos vi naquelas linhas. Parei e pensei... e lembrei... Lembrei do que não esqueço nunca. Lembrei que te olhei mas não vi... mas ao cair da tarde eu te toquei: e tudo já estava aqui. Eu te guardei só pra mim, e eu sofri. Eu chorei, eu enlouqueci. Eu quase morri. Eu me esqueci. Mas eu tanto quis que mereci! Os olhos brilhantes ali, miravam diferente, enfim! Não pensei, a certeza há muito me acolhia. Agora as estrelas brilham só pra mim, a luz que ilumina esse mundo inteiro.. que percorre o céu e destrói a chuva, que desabrocha as flores e protege o meu sorriso e a minha dor. Minha bênção e meu medo. És a minha escolha e a minha sorte, e o paraíso é em qualquer lugar, desde que os olhinhos estejam ali para olhar, segurando a minha mão. Tudo em mim vale se a luz iluminar, e que Deus me perdoe pelos dias vazios quando brilho não há... Reconheço enfim, quem amou como nós, não importa a cor do céu e para onde o vento sopre: eu "não quero ser... sem que me olhes".
Intrusa
E se eu negar o mundo, mergulhando para o lado de dentro, no meu silêncio particular? Se despir-me das sensações da luz, isolar-me por segundos, abrigar-me por trás desse véu desconhecido onde o tempo não perturba.. Onde eu chego? Que lugar é este, onde sou leve, e o pensamento me faz voar? Percorro as entranhas do passado, revivo alegrias, reencontro sentimentos e volto, de repente, para o meu silêncio particular... Será que assim, atirando-me sem pudor, ganho asas, subo aos céus, e, surpresa ao te encontrar, de longe, para aliviar a dúvida, para acalantar a incerteza e acalmar o coração... será que ainda somos iguais? Cercariam-me estrelas, figurariam os anjos o sorriso de ternura do momento especial, do encontro de dois mundos... Dois mundos? Mas não somos iguais? Tu és feita de luz, tens o tamanho dos teus pensamentos... Tens as respostas, tens o vento que te leva. Tens a vida, e o medo não é mais teu. Tens a certeza, eu tenho a fé. Vivo feliz em minha prisão, aqui eu quero tudo o que tenho... Cercada pelas flores que cuido com tanto amor, não quero deixar esse jardim... Mas sei que longe daqui, onde meus olhos não alcançam, quando me elevo e fujo, lanço-me ao infinito, no meu silêncio particular, como aquela que não é chamada, que não foi convidada... que foi porque quis... que teme essa ousadia e que logo fecha a porta... antes que se apague o caminho da volta. Será que esta também é minha casa? Percebo teus sentimentos, fantasio a tua presença e volto ao silêncio de dentro de mim. O mundo ainda atrás da escuridão... Que caminhos ainda nos unem, o que é isso que sobra e que a terra não consome? O que é isso que sobe pelo ar, atravessa as dimensões, e reencontra a existência? Como o cego que vaga nas percepções, eu te sinto perto, te sinto em mim, mas te sinto longe, muito além da fronteira, distante, diferente, resultante. Será que isso é só meu? Ou será que me observas a tatear o meu redor, a rastrear os teus vestígios, a te buscar nos teus amores? Será que sabes que rogo aos céus que luz te alcance e que ilumine teus passos? Que sigas em frente.. mas que não te esqueças daqui, pois muitas são as estações, mas nesta deixastes um pouco do teu coração. Tu que hoje sabes o que há atrás da porta, como te portas, o que conversas, quem te cativa? O que tu queres, o que tu sentes? Qual tua rotina? O que de ti vive em mim, o que de mim está aí? O que mudou? Eu volto ao meu lugar, ao meu silêncio particular... quebro a escuridão que cuidei a me cercar. Reconheço-me em minha prisão, que me acolhe, tão feliz, e deixo de ser a intrusa, que te busca no infinito, mas cujas asas.. nada podem ajudar. Voa, minha amiga, voa alto, eu ficarei aqui cuidando do meu jardim... não tenho asas para te acompanhar. Mas se, de repente, tudo se esconder atrás do escuro, voe no meu silêncio, leva-me contigo a entender a vida, deixa eu chegar bem perto e agradecer. Deixa eu tocar o céu, ver a luz irradiar, a saudade libertar e quebrar a escuridão. O encontro se desfaz. Não pertenço a este lar. Mas sei que estou um pouco aí, neste coração que voa alto, voa longe, e encontra abrigo no meu peito nos unindo para sempre nesse mundo de dois lados... nessas moradas iluminadas pela mesma luz. Volto ao jardim contrariando a canção: dessa vez não vou chorar. Este é o meu lugar. Até quando Deus quiser. Peço a ele, então, que a tristeza se vá... que deixe esse lugar, que mude e se transforme, tome forma de saudade e que mais uma flor se torne...
Versifica!
"No tengo a quien rezarle pidiendo luz,Ando tanteando el espacio a ciegas.No me malinterpreten,No estoy quejándome.Soy jardinero de mis dilemas".
Penso sobre o que faz tudo valer. Não falo de mim, aqui há acesa a certeza do futuro e um vestígio de resposta. Refiro-me aos infelizes, aos incrédulos, aos egoístas, aos ignorantes. Que triste o véu sobre os olhos daqueles que não duvidam! Cerram a visão e seguem, pobres, na miséria do animal que nos abriga. Sobrevida no extinto, obediente à fome e à perpetuação. O quanto faço parte disso? Muito, demasiadamente mais do que minha percepção aceita. Que dúvida, meu Deus, que dúvida percorre meu pensamento... esse desejo de não estar em falta com o que devo ter me prometido, a culpa precipitada e a vergonha do que o passado tem atrás da neblina espessa do esquecimento. Miserável dúvida, que nem ao menos se iguala aos semelhantes. Que Deus me perdoe a soberba que habita minha consciência, que se apresenta naturalmente, desavergonhada. Ri da imagem que vê diante de si: pobre criatura que acha que sabe aguma coisa. Perdão, meu Deus, eu que faço parte de um de teus grãos, que tenta entendê-lo e mensurá-lo, em vão. Diante da dor de tantos, que não seja o que mantém a chama aquilo que a intuição manda fazer pela recompensa. Que eu encontre a resposta para a grande dúvida... Em meu peito, o desejo de que aqui habite o bom - pelo menos um rascunho. Minha alma errante roga pela melhora do entorno. Gente igual a mim, que o amor possa nos expulsar de nós mesmos, e que nasçamos ainda, o quanto for necessário, até que, plácidos, sejamos dignos de começar a caminhada.
Versifica, é o auto-conselho. Torna belo o teu sofrimento. Joga-te sobre tua imagem, e te reconhece do tamanho que és. O infinito nos pertence e meu pranto é de gratidão.
Assinar:
Comentários (Atom)

