domingo, 28 de setembro de 2008

Perto do mar nasceu Carolina

Por entre as pedras, a menina corria enquanto seus cabelos seguiam os cantos do vento que vinha do sul. Seus olhos viam o carmim do céu quando poente, que pouco depois, cravado de estrelas, faziam pensar a menina o que eram os pontos de brilho que refletiam nas águas da baía. Seus dedos aprenderam o doce compasso que desenhava os trilhos brancos e engomados que enfeitavam a casa de sua mãe. Andava pela praia e sentia nos pés nus o frio da água plácida, que nutria os peixes que nutriam a todos daquele lugar. O sol, quando baixo, coloria os verdes e os azuis que contornavam a rua desgastada pelos carros de boi, por onde Carolina passava. O dia nascia calmo e morria calmo. Nas janelas, as mocinhas observavam a tarde passar, longa que era, trazendo consigo o aroma do café da hora. Os olhos de Carolina viam os temporais, que lavavam o mar e a alma daquela gente simples. O mar de prata fazia doer os olhos da menina, quando mirava para detrás da Ilha do Largo se o sol ainda era o do meio do dia. Via as gaivotas sobrevoando o pescador, e o ruído calmo da marola, como que beijasse as pedras. Desconhecia as mazelas do mundo, a fome por ali não havia. O rádio trazia as notícias da guerra para a casa de poucos. Não tinha medo, a Carolina, que conhecê-lo foi quando as vozes que a perseguiam ainda não se faziam compreender. As orações da santamadre e os cortejos não aliviavam suas agonias, e ela mal sabia que as seguiriam durante a vida. O medo deixou seu lugar para as ladainhas do nosso Senhor, que a menina Carolina faria valer como as outras benzedeiras. Tão logo havia crescido a Carolina, e já era a do Manoel. A moça dos parcos sorrisos trajava cedo o seu vestido de despretenciosos cortes, e dava de comer às galinhas, antes do sol despontar. Do ventre delgado da Carolina nasceram duas crianças, mas seu coração amou outra além. Vivia na lida do dia enquanto o Manoel consertava alguma coisa aqui e ali, ou deslisava suas mãos calejadas das canoas e dos formões sobre o violão. A tarde custava a findar, mas a noite sempre chegava com as janelas fechadas e o calor da água no fogo, a requentar a panela com as ostras para a farinha e o café passado que já repousavam sobre a madeira da mesa. Passaram-se os anos, e foram tantas as décadas. Os filhos de Carolina são velhos. Manoel escapou do já exausto corpo que o abrigara tantos anos, havia pouco tempo. O coração aperta de dor, e ainda produz lágrimas os olhos da velha Carolina - olhos que falham e irritam Carolina. Senta frente ao verde da parede de onde passou a vida e roga a Deus que se lembre dela. Já chega dessa vida. Viu tanto e viu nada, a Carolina. O mundo atrás do Cambirela, e tudo o que acontenceu lá enquanto ela tecia os trilhos brancos, não perturbaram a calmaria da freguesia bucólica. Que pode mais querer a Carolina, que se mira no espelho, face seu semblante sério e doce, mas não vê a pele marcada pelo tempo. A idade lhe consumira o vigor da vista, que consumia a paciência da velha Carolina. Ela que aprendeu a rezar tão cedo, a menina que conhecia os mortos, quer passar para o lado deles. Eles, que a acompanharam durante a vida. Já basta, é o que pensa a Carolina. Perto do mar nasceu Carolina. Perto do mar quer morrer Carolina.

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