sábado, 27 de setembro de 2008

Intrusa


E se eu negar o mundo, mergulhando para o lado de dentro, no meu silêncio particular? Se despir-me das sensações da luz, isolar-me por segundos, abrigar-me por trás desse véu desconhecido onde o tempo não perturba.. Onde eu chego? Que lugar é este, onde sou leve, e o pensamento me faz voar? Percorro as entranhas do passado, revivo alegrias, reencontro sentimentos e volto, de repente, para o meu silêncio particular... Será que assim, atirando-me sem pudor, ganho asas, subo aos céus, e, surpresa ao te encontrar, de longe, para aliviar a dúvida, para acalantar a incerteza e acalmar o coração... será que ainda somos iguais? Cercariam-me estrelas, figurariam os anjos o sorriso de ternura do momento especial, do encontro de dois mundos... Dois mundos? Mas não somos iguais? Tu és feita de luz, tens o tamanho dos teus pensamentos... Tens as respostas, tens o vento que te leva. Tens a vida, e o medo não é mais teu. Tens a certeza, eu tenho a fé. Vivo feliz em minha prisão, aqui eu quero tudo o que tenho... Cercada pelas flores que cuido com tanto amor, não quero deixar esse jardim... Mas sei que longe daqui, onde meus olhos não alcançam, quando me elevo e fujo, lanço-me ao infinito, no meu silêncio particular, como aquela que não é chamada, que não foi convidada... que foi porque quis... que teme essa ousadia e que logo fecha a porta... antes que se apague o caminho da volta. Será que esta também é minha casa? Percebo teus sentimentos, fantasio a tua presença e volto ao silêncio de dentro de mim. O mundo ainda atrás da escuridão... Que caminhos ainda nos unem, o que é isso que sobra e que a terra não consome? O que é isso que sobe pelo ar, atravessa as dimensões, e reencontra a existência? Como o cego que vaga nas percepções, eu te sinto perto, te sinto em mim, mas te sinto longe, muito além da fronteira, distante, diferente, resultante. Será que isso é só meu? Ou será que me observas a tatear o meu redor, a rastrear os teus vestígios, a te buscar nos teus amores? Será que sabes que rogo aos céus que luz te alcance e que ilumine teus passos? Que sigas em frente.. mas que não te esqueças daqui, pois muitas são as estações, mas nesta deixastes um pouco do teu coração. Tu que hoje sabes o que há atrás da porta, como te portas, o que conversas, quem te cativa? O que tu queres, o que tu sentes? Qual tua rotina? O que de ti vive em mim, o que de mim está aí? O que mudou? Eu volto ao meu lugar, ao meu silêncio particular... quebro a escuridão que cuidei a me cercar. Reconheço-me em minha prisão, que me acolhe, tão feliz, e deixo de ser a intrusa, que te busca no infinito, mas cujas asas.. nada podem ajudar. Voa, minha amiga, voa alto, eu ficarei aqui cuidando do meu jardim... não tenho asas para te acompanhar. Mas se, de repente, tudo se esconder atrás do escuro, voe no meu silêncio, leva-me contigo a entender a vida, deixa eu chegar bem perto e agradecer. Deixa eu tocar o céu, ver a luz irradiar, a saudade libertar e quebrar a escuridão. O encontro se desfaz. Não pertenço a este lar. Mas sei que estou um pouco aí, neste coração que voa alto, voa longe, e encontra abrigo no meu peito nos unindo para sempre nesse mundo de dois lados... nessas moradas iluminadas pela mesma luz. Volto ao jardim contrariando a canção: dessa vez não vou chorar. Este é o meu lugar. Até quando Deus quiser. Peço a ele, então, que a tristeza se vá... que deixe esse lugar, que mude e se transforme, tome forma de saudade e que mais uma flor se torne...

Um comentário:

Rafael Vidal Eleutério disse...

desde o princípio do segundo parágrafo a música já me vinha à cabeça... desde o terceiro já sabia de quem se tratava. a arte de escrever herdastes bem do tiburcio, mari.



sutil, quizás...
tan real como una frangancia.