quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Carta da bonança

Se eu pudesse te contar tudo o que se passou desde que fostes embora... Parece que não faz tanto tempo assim, mas dois anos se completam hoje! Soube que raiava o dia, o sol já se espreguiçava por entre as nuvens. O canto dos passarinhos recepcionou os teus amigos, que vieram ao teu encontro, te levar pela mão. Deixastes as roupas que usavas, e acredito que depois de apontares para o céu enquanto suspiravas, aliviada, fostes envolvida por um pouco de sol que te achou por entre a fresta da janela. Aquele solzinho de inverno ainda, quentinho, aquela cor da manhã. Cheirinho de roupa limpa, o solzinho a te embalar... a mente leve como nunca havia estado, e nada a fazer se não se entregar a esse soninho que fechou os teus olhos. Desde esse dia, eu só te encontro nos meus sonhos... E tudo o que aconteceu contigo depois é um mistério pra mim. E tanta coisa aconteceu por aqui.. Choveram tantos dias e tantas noites, Bruna... e eu sei que a tempestade te assustou. A água caía com força, e encontrava caminhos que antes não existiam. Lavou esta terra, e continuou a cair, por mais noites tantas. As vezes eu não percebia mais o barulho da chuva, que insistia nos meus ouvidos. Acostumei-me a olhar pela janela e ver o mundo cinza, a tespestade que não cessava, mais forte a cada vez que encarada. A tormenta a girar sobre nossas cabeças só era interrompida pelo susto do relâmpago, que rompia o céu com força e iluminava a escuridão em lampejos, lembrando da luz que não se via mais por trás da nuvem de chuva. O estrondo da luz que rompe a tempestade faz pulsar o coração, e mostra, ao longe, que aos poucos as nuvens se desfazem com a brisa suave. Ainda é fraquinho, mas sopra, e continua, firme, preciso. Percorre as rebarbas da escuridão, sopra o temporal pro mar. E continua na sua missão - ele, um vento... o tempo! Chega soprando de leve sem a gente perceber. Devagarinho as nuvens foram clareando, e que surpresa, os passarinhos já cantavam. Uma e outra flor desabrocharam, curiosas, aproveitando a trégua da noite. Não falemos da escuridão, mas como ficam belas as nossas flores quando são iluminadas pelo sol! As sombras vão embora, o verde volta a governar. O céu azul é o mesmo que tens aí, pertinho de ti. Eu consigo ver de longe! E sem as nuvens pesadas e carregadas de chuva, mesmo quando o dia se recolhe e a noite traz a escuridão, o céu se completa de estrelas, essas mesmas, que também olhas. Isso tudo porque o tempo continua seu caminho, ele que é mais forte que todos nós. E o tempo vai continuar, ele não pára... e vai, que Deus permita, me marcar ao longo da viagem... vou envelhecer, aproveitar esta terra, esta escola, e por todo o meu caminho, levarei dentro de mim a lembrança presente desses olhos marcantes, que tanta coisa devem ter visto depois da tempestade. O frescor da tua juventude vai preservar tua beleza intacta na minha memória. Lábios cor da rosa, cabelos cor do ébano, pele branca como a neve. A descrição de uma princesa, de uma menina, dos sonhos de menina que me acompanharão ao longo da vida. A delicadeza dos teus gestos, o sorriso que se entrega, a confusão. A nossa cumplicidade, os segredos que me cofiastes, o carinho, o amor. A adoração que tinhas por mim, minha amiga, que lembrança valiosa. As nossas conversas sem fim. Os teus apelos, os meus consolos. A tua rebeldia, a tua culpa, a tua carência. O teu sonho. Os teus. Querida, nada disso vai enfraquecer com o tempo. Estará tudo em mim, guardado, cuidado. Lembrança de um início de juventude, alegre, feliz, inesquecível, que não faz parte do meu passado, faz parte da minha vida. Tua trajetória de cometa me atingiu em cheio, me fez cair de joelhos. Diante de mim, a evidência: de que é feita esta vida senão da vida bem vivida? Arrumei o leme do barco, apontei pro amor. Ah, coragem, que me falta... Fé, tolerância. A vida está aqui ao redor! Tu me ensinaste tanto, talvez como nunca mais ninguém mais. Obrigada por gostar tanto de mim, e por ter me ensinado tantas coisas. Esforço-me todos os dias para viver a felicidade que tu encontravas em tudo. O tempo vai me transformar, mas a menina Bruna vai me acompanhar até o sempre.

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