sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Das suspensas pequenas partes

Mais uma madrugada me consome as energias. Penso onde teria guardado o cansaço que me pesava os ombros. Já não sinto. Fechar os olhos e esperar o amanhã me parece um desperdício maior do que as odiadas sacolinhas. O enlouquecedor intervalo da goteira parece feliz em me torturar, e percebo que já ensaia novos ritmos. Nem o passarinho incomoda tanto em barulhinho. Pobres janelas daquele lugar, que suplicio lamentar-se por servir de lenço, ombro e capacho. Mas não vem ao caso, o que pensei antes era melhor do que minha mente é capaz de compilar. E o que isso tem a ver com o que eu ia começar? A visão me remete à casa verde e rosa da Carolina, onde a areia está quase toda do lado de baixo. Quantos outros surgem, alucinados como o que entra em transe. No que se transformam os lamentos de uma vida? Tímpanos calejados, é chegada a hora de entregarem-se também os olhos encapados. Ainda giram sem sentido, se esbarram e se aglutinam esses pensamentos meus. A página do calendário já repousa entre os passados, mas não me percebo ainda como o hoje que findou e o amanhã que já passou. Certo é que a música do silêncio dita o ritmo do movimento que acontece aqui dentro, e aos poucos, os sedimentos se depositam no fundo. Alguns soltos ainda giram, dispersos e lentos. Talvez a outra mesmo durma, coitada, e quem aqui fala é uma lusitana de vasta idade e culpa, pouco amada, nada observada, a não ser por seus fantasmas. Não necessariamente uma, um senhor cheio de ranços e apegos também canta em fado o que de fato vê. Sejam lá quem sejam os que me desenham a página: meus pensamentos ou de alheios, que cigarro eu fui inventar! O sol se arqueou céu afora, e tanto pensei no que a flor do asfalto terá a observar que me cansei de tanto pensar. O que pensou depois que o violão calou... É assunto pra ano ou mais, chega, eu me rendo, eu vou dormir.

Um comentário:

Rafael Vidal Eleutério disse...

"Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. E te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto..."

nesse caminho.