segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O colecionador


Dançam os dedos do rapaz pelas cordas do violão, que vibram a produzir melodias que tocam em sua mente. O som que produz acalma o seu semblante estrangeiro. Não precisam de grandes impulsos os seus pensamentos, livres que são, se lançam na imensidão. Alcançam o espaço e ainda vão mais além, buscam no infinito uma resposta, quem sabe um sinal. Bastava tão pouco. - Sim, estamos aqui. E já mudaria tudo. Mas se o pensamento que varre o universo e na busca por vida inteligente nada encontra, o tom muda e a melodia já é outra. Vê o céu azul e o dia claro, guarda a casa na mochila e ganha o mundo sobre a velha bicicleta, companheira das tardes quentes e das noites frias. Ah, como ele fica feliz quando a chuva cai fininha e refresca o dia! Respira fundo e o aroma da terra entra-lhe nariz a dentro, preenche sua alma aventureira. Os pensamentos movidos pela correia, cada vez mais velozes, ou cada vez mais lentos. Depende do dia, depende do amor. Depende da hora. E já outro pensamento de formou. Futebol no domingo, calor humano, paixão e dor, descarrega e grita gol. A vida colorida, nem sempre preenchida, de quem sente falta de não sabe o quê. Se observado atrás da solução, haja borracha, haja calculadora. Triste daquele professor. Volta das fantasias onde extermina o pobre mestre, e continua seu labor. Encontra a incógnita e a mira. Encontrei! Ah, mas que satisfação. Que bom seria se pesasse alguma coisa, doeria se arremessada com força no doutorzinho meia-boca que o desafiou naquela lista interminável. Mas que fiquem os confusos dias universitários de lado, não será por essa engenharia que entenderemos a estrutura de sua alma curiosa. Quem pudesse entrar nesse coração e ver as fotografias todas ali. As anotações, as músicas. Quantos segredos, quantos amores, quantos medos registrados. E as gafes? Os desenhos, as vontades. O bom humor. Que vasta e rica biblioteca bate nesse peito - e com recursos audiovisuais. Eu te vejo como a flor que brotou do asfalto. Levas no teu rosto a lembrança dos teus ídolos. Vejo um pouco do Manoel, doce e sereno, emotivo, cândido. Risonho, caridoso, amigo. Vejo a expressão do Placidino. Curioso, firme, rápido, comedido. Bom moço, bom garoto, grande homem. As lentes dos teus óculos ajudam o que teus olhos não conseguem ver sozinhos. Ajustado o foco, enxergas a alma das pessoas, o seu momento, a beleza do tédio, a poesia do velho. A força da natureza, uma alegria, uma tristeza. Um amigo ali, uma prima aqui, um avô cheio de assunto. O doce Ribeirão da Ilha, onde o tempo pára e o mar faz adormecer a mente inquieta de quem guarda no coração as imagens que observou. Mas que sorte tenho eu, que além de primo e amigo ganho a versão leitor assíduo. É tanto carinho que me faz envergonhar, principalmente ao lembrar que se alguma coisa aconteceu dentro de mim e que despertou as palavras, tão certo deve ser que vi em algum canto a visão que teve de alguém, ou de algum lugar. Só me resta agradecer por me deixar aberta a porta da tua coleção. Amado amigo, que feliz eu fico em lembrar da leveza desse rosto fazendo parte dos meus dias. Peito aberto, rosto sério, aqui mais um Eleutério, falando do gosto de te ouvir.

Um comentário:

Rafael Vidal Eleutério disse...

Mari,
faltam-me palavras para descrever o que senti ao ler isto. Não sei como agradecer, tampouco se serei capaz de retribuí-lo à altura.
Logo saberei expressar-me melhor... Não consigo dizer nada agora!

Beijo!