domingo, 5 de outubro de 2008

As nossas caras queimadas

Sebastião Salgado, Etiópia.



Os pés feridos pelo calor da terra não sentem mais a dor, ela se faz presente na criança contorsida pela fome. O sangue que lhes deve escorrer parece a água que não brota do chão, passeia livre por entre a aridez da pele rachada que revela o interior do corpo sujo e contaminado. Sobre seus corpos esguios, cheira a podre o manto fétido que se cobrem. É o odor dos engulhos humanos, do que a pele fraca ainda consegue expelir. É o odor do calor, do suor de quem da água se delicia para matar a sede que fecha a garganta e os impedem de falar. Cheiram a animais - como se não fossem. As moscas lhes pousam sobre as faces, buscam os restos do resto que comeram. Pensam pouco, lhe restam os extintos. Um olha pra trás, mas guia o bando a criança, olhando o chão. Também pouco pensa, sente-se a flutuar no equilíbrio de seus ossinhos. Andam devagar, sem pressa, a vida é curta, e não há o que aproveitar. Vejo beleza na imagem que me desperta vergonha. Meu Deus, que desassossego diante a esperança que escorreu pelo ralo e não volta mais. Que angústia ao te pedir perdão por pensar assim. O pensamento corre e se espatifa num muro alto, pelo qual não vejo mais nada. O que estamos fazendo... que miserável é o animal que pensa. Há tempos tiramos a santa do altar. Adoramos o poder, o dinheiro, o poder do dinheiro. Moldamos nossas vidas de forma a merecermos o dinheiro, mais e mais dinheiro. A lei permite, estamos legitimados, e não há motivos para não pensar na honestidade de se ganhar quando fruto do trabalho honesto e honrado. Não sente culpa, o cidadão. Impostos em dia, diploma na parede, os meninos não tem do que reclamar. Tudo azul do outro lado do mundo. Nem precisa ir tão longe.. logo ali os donos do óleo da pedra vivem a beleza da arquitetura futurista, que enxem os olhos, e dão orgulho aos que não tem nada a ver com isso. Quantos sonham em conhecer as maravilhas das ilhas desenhadas, e todo o entorno fantástico daquela riqueza toda. Mas não falemos dos extremos, não dizem muito. O cidadão comum, daqui e de lá, de qualquer lugar. O homem igual ao pobre que vaga pelas areias. Tira-lhe o couro, não diferenciarás um do outro. Onde fica o valor do homem? Conversa sem fim, essa. Penso que isso não há, valor, que se possa atribuir mais a um do que ao outro. O santo que subiu ao lado de Deus e o assassino inescrupuloso são da mesma natureza. São seres humanos, iguais, e se hoje estão nas diferentes escalas da evolução, o santo já matou algum dia, e o altar espera o assassino. O que nos tornará iguais um dia é o tempo. Pois se não há os condenados perpétuos nem os escolhidos para viver na felicidade, somos todos, enquanto humanos que somos, iguais na natureza. Os homens que nos revelaram a vida de depois nos avisam de quão pouca evolução sustentamos, e o tempo de uma vida não vale para entendermos tudo. Presos e exilados da condição humana de liberdade e entendimento, passamos nossas vidas, desde o início, emoldurando-a de tal forma que possamos dignamente ganhar nosso santo e sagrado dinheiro. Ele, que nos alegra, nos enxe os olhos, que traz a felicidade. O dinheiro. E não há como não ser, os outrs sitemas não funcionaram, e se viveram, foi às custas do sangue derramado. Nenhum homem, de lugar que seja, se gaba do comunismo se uma arma não lhe aponta as ventas. Por maravilhosa que seja a idéia contida na semente que se jogou na terra, não é possível que viva, não há como praticá-lo. Sustenta esse sistema um nível mínimo de moral que nós não temos. O último a sair é o novo gigante capitalista, às custas do trabalho escravo de um povo doutrinado que reclama pouco. Os que reclamaram não podem mais falar. Estão na lista dos ancestrais, já. O gigante dragão vermelho devora as energias do seu povo. E faz dinheiro, mais e mais dinheiro. A ilha perdida do velho general se conserva como se tivesse sido tragada pelas forças estranhas do Triângulo das Bermudas - sabe-se lá o que se passa por lá. Mas sabe-se o que não passa: o tempo. Vivem nos mil novecentos e depois da guerra. O homem se deu poder e tirou o dos seus iguais. Não terás nada além dos outros. Essa é a lei. Todos iguais, em sonhos e em posses, pois só isso vale. Iguais em posses, iguais em possibilidades. O preço da liberdade é o remédio garantido, é o bom doutor. Escolas que não faltam. Meu Deus, mas e daí? Que vida miserável é essa a da terra prometida, que nem da ilha se pode sair. O general velho de guerra, mentiroso, doente, insano. Os seus seguidores sãos e a massa ignorante que grita vivas ao lider absurdo. E o que dizer das novidades? Das novas tentativas de igualar os homens, de verticalizar o poder que emana do povo - não emana do povo? Se for de outra forma, emanará de Deus? Tantos são os exemplos da ignorância de quem pensou representar o criador. A tentativa daquele que não se calla, que grita, ignorante, a sua vontade aos quatro ventos. Os donos do gás. Os arredores, ignorantes, mal começados, mal acabados. O nosso operário que tinha preço, sim. Onde está o erro? O erro está em todos, está dentro da mente doente de cada um que se reconhece humano. Mas de que vale o rateio da culpa se nascemos com tudo pronto, que força temos diante dos gigantes? É justo esse rateio da culpa? Acredito nas palavras dos homens da terceira revelação. Acredito que fora da caridade não haverá a salvação dos homens. O pensamento que me guia não fica mais à parte do que aprendi nos livros. Não pode ficar. Mas então, como pensar na caridade como a solução? Toda a gente se organizou de forma a ratear os gastos daquilo que deve ser público. Trabalha-se, já, muito a mais para sustentar a coisa toda. E ainda cobra-se do cidadão a doação espontânea, já que seu dinheiro escoou para a mão dos que valem muito pouco - por isso o preço é baixo. A culpa é entornada goela a baixo. A caridade que homens de lá nos falam não é isso. Não acredito, eles não se referem a isso. Às doações, ao tempo cedido, não. Isso não pode ser. Nossa limitação de idéias e de palavras forçaram usar a palavra que já existia para resumir o maior ensinamento, o de amar o próximo como amamos a nós mesmos. Essa é a caridade que salvará o mundo. De que forma ela se manifesta, pouco importa. Só é a verdadeira caridade aquela que não satisfaz a vaidade humana. Pouca gente conheceu o caminho da salvação, então. Começar a caminhada é para séculos a partir daqui. Esse é o mundo que merecemos. Nossas caras estão queimadas não pelo aspecto da cor, que inspirou o nome do país miserável. Nossa cara é queimada pelo fogo da ignorância que nos torna cegos, surdos, mudos. Mas há um caminho.

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