sábado, 22 de novembro de 2008

Florido

Chamaram-na de flor, a última das que brotaram nos entornos da bota do velho mundo. Tantas vezes foi musa de versos e prosas, mas é ponte à paisagem, não o paraíso em si. A verdade é essa, por mais que me doa dizer. Dói-me porque a amo, inculta,  tal qual disse o poeta que venerou teus trejeitos. Os caminhos que determinastes para os sons das nossas idéias são tão belos! És imponente castelo de paredes erguidas e imóveis. Ocorre de alguém querer trocar-lhe um ou outro tijolo. Ah, com isso não poderei jamais concodar, o castelo deve ficar ali, intacto, imóvel, imune ao tempo. Um tijolo muda muito, tira o dente que enfeita o teu semblante e te compadecerás. Mas já estou eu chamando a flor de castelo, logo ela que é a última. Não por isso, na verdade. Mas ela me permite pensar assim. Eis o assunto dessas minhas letras, ela: a ponte, a flor, o castelo. Ela ordena as idéias de quem nasceu no florão da América ou aquém do Bojador. Ou mais ainda, de quem, vencido os mares, ouve as vozes dos mulatos mundo afora. Já é norte quando olha-se também os amarelinhos que se tocam pelo seu esplendor rude e doloroso. Eu passeio pelas palavras do poeta porque me emocionam, não porque sejam belas, mas porque se dedicaram a pensar e enaltecer o caminho. Fala-se tanto em chegar, há quem olhe para o que se passa abaixo dos pés. Que belo caminho temos! Mas fico eu aqui pensando na limitação que isso tudo trás. O nosso pensamento só vai até onde nosso idioma permite. Quantos pensamentos não são pensados porque não há como concebê-los? Temos um universo alejado em nossas mentes. Empurra o peso na cadeira o idioma. Depende dele o caminho por onde vamos. Se ele não puder nos ajudar, morrem ali os nossos novos lampejos. Quantas palavras não existem, meu Deus. E o quanto isso é importante, ou é apenas um dizer florido que me escapou? Tem pensamento que é assim, percorre a nossa vida, nasceu na infância, vez ou outra vem dar um alô. As vezes se torna algo que se escreve, mesmo que não esteja nem perto de estar ali nas letras o que se pensou. Mas tudo bem, o que queria dizer é isso, mas que armadilha essa nossa bela. É o machado que decide o que o marcineiro entorna no tronco da árvore caída. Queira ele um armarinho ou um pilão, o machado esculpe algo que passa perto do que pensou o artesão. 



sábado, 8 de novembro de 2008

Conversa de um lado só

Caminhas com teus passos certos, nem largos, nem ligeiros, como quem não erra. Teus olhos fitam algum lugar do horizonte, não me olhas, ignoras o meu pranto e a minha dor. Com qual despeito mudas assim a minha face, passas por mim a me ignorar? Que poder de estar aqui e em todo lugar, de entrar em todo espaço que há e transformar o que existe e o que não é. Te percebo e não te compreendo... Não entendo a tua forma, não sinto teu início ou o teu fim. Por natureza não podes não haver, serias até mesmo se nada fosse.  Reinas em estado de graça, sempre imune, sempre ávido. Se caio em teus braços e esqueço-me de agora, me conduzes pela mão a lugares que sonhei, ao que já vivi, a beijos que já beijei, ao amor que me é tão único e só. Como fumaça ou a taça de que me servi, me fazes qual a embriagada que se passa nos sentidos. Como é forte esse amor, que saudade me arrasa ao chão, que medo do que será! E se não for, o que virá? És o cavalheiro misterioso que seduz com flor de plástico. A moça encantada se entrega e depois vê que passaste e continuastes teu caminho, nos mesmos passos, mirando o mesmo horizonte, indiferente a quem te olha com maior atenção. E a moça já não é mais a mesma depois que te encontra, arrasada pelas marcas que deixastes em seu corpo que era ainda jovial. O que fizestes com o frescor da juventude? Com qual frieza passas assim sem dó pela cidade, pelas vilas, pelas casas, pelas vidas? Quantos amores deixastes no caminho, sem que te vires a olhar o que sobrou? No fim de tantos dizeres, ninguém nunca te entendeu, meu caro. Pouco se passou desde que a continuidade dos teus passos indiferentes foi questionada, e fostes retirado da condição de compreendido para a mais incógnita das variáveis desse todo que é - porque é, até que se saiba dizer algo a mais. Pobre de mim. Eu que te sinto, eu, que te admiro e te temo não compreender. Quero que me consagres, quero que me faças melhor. Quero, enfim, que passes! Tu que não és nem homem nem Deus, és tu o tempo que não entendo, não enfrento, sobre o qual nada posso fazer.


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Bem me quer



Infinitos os recantos
Infinitos são os cantos
Infinitos, mas nem tantos,
Os quebrantos que amarguei

Choro o pranto da saudade
Ausência tua, calamidade
Dependência e vaidade
O amor que eu conquistei

O cedro do olho teu
Mira o verde que há no meu
E meu peito já cedeu
O coração que eu te entreguei

Tua mão segura a minha
A certeza que eu já tinha
Ainda eu a menininha
Já te amava, eu bem sei...

domingo, 2 de novembro de 2008

Além



Fecha os olhos. Compreende-te apenas até onde estás compreendido, no limite do teu corpo. Além da tua pele, nada mais de ti. Permanece assim, cerrados os olhos. Teu coração bate, estás vivo. Sente o que é teu e te faz diferente da pedra imóvel. O silêncio ao teu redor e a escuridão que vislumbras te faz sentir o que eu não posso dizer. Observa, com cautela, e me diz sobre o desespero de pensar que nada mais és do que um elemento ou outro que se repelem ou se mutam, que se rearranjam. O teu amor incompreendido, o teu sereno perdão.. a tua dúvida, o teu querer, o teu quem sabe... pobre homem. Hoje choras pelos que já partiram, lamentas a decomposição de quem um dia já te amou. A chuva dessa tarde acompanha as lágrimas da saudade de quem levou a flor como presente ao que restou de alguém que já viveu. Eu rejeito o fim. Não concebo que acabem todos os meus amores e medos entranhados na água fétida de um túmulo. Que o meu amor, o meu grande amor, seja um vício meu, animal que sou. Não creio que o miserável assim o seja pela infelicidade de existir naquela hora. Ou isso ou Deus. Os dois juntos é que não pode ser. É, então, a ignorância humana que percorre os séculos e não permito que faça morada em minha cabeça. Ora, como pode rogar aos céus o mesmo homem que pensa onde estás, Senhor, quando vê a morte sufocar a criança faminta? Por que o homem pede perdão pelos pecados se não acredita que eles, perdoados, não nos fazem piores? Por que se aceita o teu oposto, se o mesmo crê que és único e supremo em tudo o que há? Nada que é humano me convence que é verdade qualquer que seja a face da luz. Mas nasci acolhida no manto branco que perfuma como os incensos de alecrim, e comigo segue a rama da uva. Um dia seremos milhões a ter a mesma fé, e não será, tenho fé, uma questão de fé. Saltará aos nossos olhos, a evidência por si se explica. Ocorre que é necessário um quinhão mínimo de amor entre os homens. A consciência branda não é comum, nem normal. Mas é tão fácil ver o mundo daqui... Não é mais fácil viver, humana que sou e estou. Mas ver, sim, o é. Entendo melhor o que me cerca, aceito a lógica dos fatos e posso até prever o que me aguarda. E posso, mais que qualquer coisa, escolher o caminho do amor. Escolher a flor ao espinho. Ter um milhão de amigos e nenhum dobrão. Hoje eu choro de saudade de quem voltou pra casa. Eu um dia voltarei também. Eu e todo mundo. E quero olhar pra traz e pensar que fiz o que me propus, subi os degraus que devia. Quero ter a certeza que sempre escolhi o que a terra não traduz no verde novo, disse o poeta. Escolhi os que me amaram, os que amo com tamanho fervor. Escolhi a verdade e a doação do meu tempo. Escolhi a vida, escolhi o certo, escolhi não me arrepender. Escolhi me arrepender. Escolhi o que o melhor de mim pode dar. Observo o lamento desses corações que se apóiam no frio mármore que guarda o que ali jaz. Um dia lamentaremos menos. Que se lamente o que somos nós, porque os que se escaparam deste exílio voltaram ao verdadeiro lar de quem é humano. O barco que já cruzou o horizonte encontrou o cais a aguardá-lo, e este, o cais, é o grande mistério desses que somos nós os exilados. 

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Terra seca



Questiono-me se quando a noite vem e os olhos cerram-se, há, quem sabe, uma pequena luz no fundo dessa alma. Quando pende o peso da consciência sobre o macio dos panos brancos, a porta da alcova termina o dia num feixe de luz por onde ela pode ver ainda um pouco dos detalhes do seu redor. A escuridão lhe parece mais segura, pois a meia-luz traz rostos e movimentos que se confundem com os próprios monstros que alimentou durante o dia. Aliviada, lateja o corpo cansado e a mente embreagada gira mais devagar. O sangue corre forte, encontra barreiras mas segue no fluxo enlouquecido de um coração nervoso. O peito abriga a mágoa, a inveja, a solidão. Conhece-se bruto e infeliz. Mas sustenta a face do bom no sono dos justos. Mas não me engane que no silêncio do teu momento não percorre teu pensamento a versão que empenhaste em estandarte ao lado da nua verdade, inalterada, mesmo que ainda tu, pobre criatura, acabes por nela acreditar. Que belo jardim que plantastes, porque cuidates tanto das ervas daninhas? As pragas cultivastes para devorar flores alheias, na tua terra seca nada crescia. Não cuidastes da água escassa e os teus vales são de sombra, não há vida ao teu redor. Te alivia quando calam os passarinhos do quintal que não é teu, mas não cuidas do teu ninho e um bichinho igualzinho já aprendeu a ser assim. Que peso carrega esse coração, o que há dentro desse coração? Que amor te habita as entranhas, o que te faz melhor aos meus olhos do que a figura que eu vejo diante de mim? Como posso apostar tão pouco no brilho desse olhar vazio? Perdão, meu Deus, queria habitar já outras esferas, perdoar para assim me entendas, mas a ofensa e o desprezo ainda me parecem mais próximos da sinceridade dos meus pensamentos do que os anceios de merecer algo melhor. Que lamento inexistente, meu Deus. Como posso, em silêncio, abençoar a fenda que se firmou e partiu a terra seca em dois montes de pó? Que nada mais que pouco sou eu diante do prazer ao ver que te conflitas com teus próprios demônios, e vejo-se desesperada buscando as saídas da mentira? Tua vida é um vôo insano para que se apaguem as estrelas, teu brilho só assim aparecerá. Ilusão de um pequeno coração, que tão pouco quis aprender, e nada tem a ensinar. Eu despejo a minha raiva na forma sonora das palavras, e poucas vezes estivestes em tão boa vestimenta. Meu peito sinceramente chora no desejo de que a vida não fosse outra, fosse a mesma que é, que observássemos a nosso nanismo antes de que se delicie da réu agonizante. Essa felicidade que hoje sentes, tal heroína que é a mocinha da história, eu sei, encontra tua consciência. Sei, pois somos iguais, e por mais que meu orgulho desejasse que fôssemos diferentes e que eu me colocasse a parte da tua mesma natureza humana, a verdade é que somos iguais. Tu com teus desejos de sugar o sangue dos que queres ver no chão, e eu por não poder disfarçar a alegria por saber que tua ausência será presente, e nada indica sinal de volta. Não te desejo a sombra, tilha o caminho do sol, aquele cercado pelas flores que preferes ver mortas ao longo do caminho, se este não é o teu. Perdão, meu Deus, eu me esforço, mas a sinceridade dos meus pensamentos me mostram a escancarada face de um abismo que não me cativa a percorrê-lo, e mesmo sabendo que o caminho só continua se for cumprido, não me chama o outro lado. As tuas palavras ecoam pelo espaço buscando um alvo, vez ou outra derruba um. Mas qual será tua angústia se todos os jardins ficassem mudos, mortos, devastados pelas bombas que jogas ao teu prazer? O que irás, agora, cuidar como o teu? Não sobrará nada perto de ti se não tu mesma, e sem ninguém mais para perturbar a vida que se segue, tratarás de correr, atrás de outra vítima que não seja outra carniça que já usastes pra te sentir feliz. Pobre criatura, o peso do teu coração inflado de raiva só não se compara ao fardo de te carregar vida a fora por obrigação, manto do amor cobrindo-lhe as faces. Deus me perdoe por tamanho desgosto por sentir esse não bem querer. Não me perturbas, eu te quero longe mas os teus gritos nunca me chegaram a mais de meio metro do chão. Se cuidastes em envenanar um outro ninho, tua missão acabou, pois hoje somos pássaros a voar muito mais longe. Eu queria um dia poder te amar, mas hoje o melhor que posso oferecer é o meu não e o meu silêncio, a minha distância e de toda culpa o meu quinhão.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Das suspensas pequenas partes

Mais uma madrugada me consome as energias. Penso onde teria guardado o cansaço que me pesava os ombros. Já não sinto. Fechar os olhos e esperar o amanhã me parece um desperdício maior do que as odiadas sacolinhas. O enlouquecedor intervalo da goteira parece feliz em me torturar, e percebo que já ensaia novos ritmos. Nem o passarinho incomoda tanto em barulhinho. Pobres janelas daquele lugar, que suplicio lamentar-se por servir de lenço, ombro e capacho. Mas não vem ao caso, o que pensei antes era melhor do que minha mente é capaz de compilar. E o que isso tem a ver com o que eu ia começar? A visão me remete à casa verde e rosa da Carolina, onde a areia está quase toda do lado de baixo. Quantos outros surgem, alucinados como o que entra em transe. No que se transformam os lamentos de uma vida? Tímpanos calejados, é chegada a hora de entregarem-se também os olhos encapados. Ainda giram sem sentido, se esbarram e se aglutinam esses pensamentos meus. A página do calendário já repousa entre os passados, mas não me percebo ainda como o hoje que findou e o amanhã que já passou. Certo é que a música do silêncio dita o ritmo do movimento que acontece aqui dentro, e aos poucos, os sedimentos se depositam no fundo. Alguns soltos ainda giram, dispersos e lentos. Talvez a outra mesmo durma, coitada, e quem aqui fala é uma lusitana de vasta idade e culpa, pouco amada, nada observada, a não ser por seus fantasmas. Não necessariamente uma, um senhor cheio de ranços e apegos também canta em fado o que de fato vê. Sejam lá quem sejam os que me desenham a página: meus pensamentos ou de alheios, que cigarro eu fui inventar! O sol se arqueou céu afora, e tanto pensei no que a flor do asfalto terá a observar que me cansei de tanto pensar. O que pensou depois que o violão calou... É assunto pra ano ou mais, chega, eu me rendo, eu vou dormir.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

No lombo da girafa

Desce daí e te arruma depressa, já é hora de acordar, a girafa quer partir.
De que te adianta o medo da girafa?
É negar o fogo diante da fumaça.
Tens a mesma pressa de quem te interpreta.
Tudo bem os julgamentos, quando o réu não tem teu nome.
Não é girafa, menina, é só um pangaré.
Teu circo precisou de tanto pra se erguer!
Mas só água, sabão e silêncio já trazem a tua cara de volta.


segunda-feira, 6 de outubro de 2008

O colecionador


Dançam os dedos do rapaz pelas cordas do violão, que vibram a produzir melodias que tocam em sua mente. O som que produz acalma o seu semblante estrangeiro. Não precisam de grandes impulsos os seus pensamentos, livres que são, se lançam na imensidão. Alcançam o espaço e ainda vão mais além, buscam no infinito uma resposta, quem sabe um sinal. Bastava tão pouco. - Sim, estamos aqui. E já mudaria tudo. Mas se o pensamento que varre o universo e na busca por vida inteligente nada encontra, o tom muda e a melodia já é outra. Vê o céu azul e o dia claro, guarda a casa na mochila e ganha o mundo sobre a velha bicicleta, companheira das tardes quentes e das noites frias. Ah, como ele fica feliz quando a chuva cai fininha e refresca o dia! Respira fundo e o aroma da terra entra-lhe nariz a dentro, preenche sua alma aventureira. Os pensamentos movidos pela correia, cada vez mais velozes, ou cada vez mais lentos. Depende do dia, depende do amor. Depende da hora. E já outro pensamento de formou. Futebol no domingo, calor humano, paixão e dor, descarrega e grita gol. A vida colorida, nem sempre preenchida, de quem sente falta de não sabe o quê. Se observado atrás da solução, haja borracha, haja calculadora. Triste daquele professor. Volta das fantasias onde extermina o pobre mestre, e continua seu labor. Encontra a incógnita e a mira. Encontrei! Ah, mas que satisfação. Que bom seria se pesasse alguma coisa, doeria se arremessada com força no doutorzinho meia-boca que o desafiou naquela lista interminável. Mas que fiquem os confusos dias universitários de lado, não será por essa engenharia que entenderemos a estrutura de sua alma curiosa. Quem pudesse entrar nesse coração e ver as fotografias todas ali. As anotações, as músicas. Quantos segredos, quantos amores, quantos medos registrados. E as gafes? Os desenhos, as vontades. O bom humor. Que vasta e rica biblioteca bate nesse peito - e com recursos audiovisuais. Eu te vejo como a flor que brotou do asfalto. Levas no teu rosto a lembrança dos teus ídolos. Vejo um pouco do Manoel, doce e sereno, emotivo, cândido. Risonho, caridoso, amigo. Vejo a expressão do Placidino. Curioso, firme, rápido, comedido. Bom moço, bom garoto, grande homem. As lentes dos teus óculos ajudam o que teus olhos não conseguem ver sozinhos. Ajustado o foco, enxergas a alma das pessoas, o seu momento, a beleza do tédio, a poesia do velho. A força da natureza, uma alegria, uma tristeza. Um amigo ali, uma prima aqui, um avô cheio de assunto. O doce Ribeirão da Ilha, onde o tempo pára e o mar faz adormecer a mente inquieta de quem guarda no coração as imagens que observou. Mas que sorte tenho eu, que além de primo e amigo ganho a versão leitor assíduo. É tanto carinho que me faz envergonhar, principalmente ao lembrar que se alguma coisa aconteceu dentro de mim e que despertou as palavras, tão certo deve ser que vi em algum canto a visão que teve de alguém, ou de algum lugar. Só me resta agradecer por me deixar aberta a porta da tua coleção. Amado amigo, que feliz eu fico em lembrar da leveza desse rosto fazendo parte dos meus dias. Peito aberto, rosto sério, aqui mais um Eleutério, falando do gosto de te ouvir.

domingo, 5 de outubro de 2008

As nossas caras queimadas

Sebastião Salgado, Etiópia.



Os pés feridos pelo calor da terra não sentem mais a dor, ela se faz presente na criança contorsida pela fome. O sangue que lhes deve escorrer parece a água que não brota do chão, passeia livre por entre a aridez da pele rachada que revela o interior do corpo sujo e contaminado. Sobre seus corpos esguios, cheira a podre o manto fétido que se cobrem. É o odor dos engulhos humanos, do que a pele fraca ainda consegue expelir. É o odor do calor, do suor de quem da água se delicia para matar a sede que fecha a garganta e os impedem de falar. Cheiram a animais - como se não fossem. As moscas lhes pousam sobre as faces, buscam os restos do resto que comeram. Pensam pouco, lhe restam os extintos. Um olha pra trás, mas guia o bando a criança, olhando o chão. Também pouco pensa, sente-se a flutuar no equilíbrio de seus ossinhos. Andam devagar, sem pressa, a vida é curta, e não há o que aproveitar. Vejo beleza na imagem que me desperta vergonha. Meu Deus, que desassossego diante a esperança que escorreu pelo ralo e não volta mais. Que angústia ao te pedir perdão por pensar assim. O pensamento corre e se espatifa num muro alto, pelo qual não vejo mais nada. O que estamos fazendo... que miserável é o animal que pensa. Há tempos tiramos a santa do altar. Adoramos o poder, o dinheiro, o poder do dinheiro. Moldamos nossas vidas de forma a merecermos o dinheiro, mais e mais dinheiro. A lei permite, estamos legitimados, e não há motivos para não pensar na honestidade de se ganhar quando fruto do trabalho honesto e honrado. Não sente culpa, o cidadão. Impostos em dia, diploma na parede, os meninos não tem do que reclamar. Tudo azul do outro lado do mundo. Nem precisa ir tão longe.. logo ali os donos do óleo da pedra vivem a beleza da arquitetura futurista, que enxem os olhos, e dão orgulho aos que não tem nada a ver com isso. Quantos sonham em conhecer as maravilhas das ilhas desenhadas, e todo o entorno fantástico daquela riqueza toda. Mas não falemos dos extremos, não dizem muito. O cidadão comum, daqui e de lá, de qualquer lugar. O homem igual ao pobre que vaga pelas areias. Tira-lhe o couro, não diferenciarás um do outro. Onde fica o valor do homem? Conversa sem fim, essa. Penso que isso não há, valor, que se possa atribuir mais a um do que ao outro. O santo que subiu ao lado de Deus e o assassino inescrupuloso são da mesma natureza. São seres humanos, iguais, e se hoje estão nas diferentes escalas da evolução, o santo já matou algum dia, e o altar espera o assassino. O que nos tornará iguais um dia é o tempo. Pois se não há os condenados perpétuos nem os escolhidos para viver na felicidade, somos todos, enquanto humanos que somos, iguais na natureza. Os homens que nos revelaram a vida de depois nos avisam de quão pouca evolução sustentamos, e o tempo de uma vida não vale para entendermos tudo. Presos e exilados da condição humana de liberdade e entendimento, passamos nossas vidas, desde o início, emoldurando-a de tal forma que possamos dignamente ganhar nosso santo e sagrado dinheiro. Ele, que nos alegra, nos enxe os olhos, que traz a felicidade. O dinheiro. E não há como não ser, os outrs sitemas não funcionaram, e se viveram, foi às custas do sangue derramado. Nenhum homem, de lugar que seja, se gaba do comunismo se uma arma não lhe aponta as ventas. Por maravilhosa que seja a idéia contida na semente que se jogou na terra, não é possível que viva, não há como praticá-lo. Sustenta esse sistema um nível mínimo de moral que nós não temos. O último a sair é o novo gigante capitalista, às custas do trabalho escravo de um povo doutrinado que reclama pouco. Os que reclamaram não podem mais falar. Estão na lista dos ancestrais, já. O gigante dragão vermelho devora as energias do seu povo. E faz dinheiro, mais e mais dinheiro. A ilha perdida do velho general se conserva como se tivesse sido tragada pelas forças estranhas do Triângulo das Bermudas - sabe-se lá o que se passa por lá. Mas sabe-se o que não passa: o tempo. Vivem nos mil novecentos e depois da guerra. O homem se deu poder e tirou o dos seus iguais. Não terás nada além dos outros. Essa é a lei. Todos iguais, em sonhos e em posses, pois só isso vale. Iguais em posses, iguais em possibilidades. O preço da liberdade é o remédio garantido, é o bom doutor. Escolas que não faltam. Meu Deus, mas e daí? Que vida miserável é essa a da terra prometida, que nem da ilha se pode sair. O general velho de guerra, mentiroso, doente, insano. Os seus seguidores sãos e a massa ignorante que grita vivas ao lider absurdo. E o que dizer das novidades? Das novas tentativas de igualar os homens, de verticalizar o poder que emana do povo - não emana do povo? Se for de outra forma, emanará de Deus? Tantos são os exemplos da ignorância de quem pensou representar o criador. A tentativa daquele que não se calla, que grita, ignorante, a sua vontade aos quatro ventos. Os donos do gás. Os arredores, ignorantes, mal começados, mal acabados. O nosso operário que tinha preço, sim. Onde está o erro? O erro está em todos, está dentro da mente doente de cada um que se reconhece humano. Mas de que vale o rateio da culpa se nascemos com tudo pronto, que força temos diante dos gigantes? É justo esse rateio da culpa? Acredito nas palavras dos homens da terceira revelação. Acredito que fora da caridade não haverá a salvação dos homens. O pensamento que me guia não fica mais à parte do que aprendi nos livros. Não pode ficar. Mas então, como pensar na caridade como a solução? Toda a gente se organizou de forma a ratear os gastos daquilo que deve ser público. Trabalha-se, já, muito a mais para sustentar a coisa toda. E ainda cobra-se do cidadão a doação espontânea, já que seu dinheiro escoou para a mão dos que valem muito pouco - por isso o preço é baixo. A culpa é entornada goela a baixo. A caridade que homens de lá nos falam não é isso. Não acredito, eles não se referem a isso. Às doações, ao tempo cedido, não. Isso não pode ser. Nossa limitação de idéias e de palavras forçaram usar a palavra que já existia para resumir o maior ensinamento, o de amar o próximo como amamos a nós mesmos. Essa é a caridade que salvará o mundo. De que forma ela se manifesta, pouco importa. Só é a verdadeira caridade aquela que não satisfaz a vaidade humana. Pouca gente conheceu o caminho da salvação, então. Começar a caminhada é para séculos a partir daqui. Esse é o mundo que merecemos. Nossas caras estão queimadas não pelo aspecto da cor, que inspirou o nome do país miserável. Nossa cara é queimada pelo fogo da ignorância que nos torna cegos, surdos, mudos. Mas há um caminho.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Carta da bonança

Se eu pudesse te contar tudo o que se passou desde que fostes embora... Parece que não faz tanto tempo assim, mas dois anos se completam hoje! Soube que raiava o dia, o sol já se espreguiçava por entre as nuvens. O canto dos passarinhos recepcionou os teus amigos, que vieram ao teu encontro, te levar pela mão. Deixastes as roupas que usavas, e acredito que depois de apontares para o céu enquanto suspiravas, aliviada, fostes envolvida por um pouco de sol que te achou por entre a fresta da janela. Aquele solzinho de inverno ainda, quentinho, aquela cor da manhã. Cheirinho de roupa limpa, o solzinho a te embalar... a mente leve como nunca havia estado, e nada a fazer se não se entregar a esse soninho que fechou os teus olhos. Desde esse dia, eu só te encontro nos meus sonhos... E tudo o que aconteceu contigo depois é um mistério pra mim. E tanta coisa aconteceu por aqui.. Choveram tantos dias e tantas noites, Bruna... e eu sei que a tempestade te assustou. A água caía com força, e encontrava caminhos que antes não existiam. Lavou esta terra, e continuou a cair, por mais noites tantas. As vezes eu não percebia mais o barulho da chuva, que insistia nos meus ouvidos. Acostumei-me a olhar pela janela e ver o mundo cinza, a tespestade que não cessava, mais forte a cada vez que encarada. A tormenta a girar sobre nossas cabeças só era interrompida pelo susto do relâmpago, que rompia o céu com força e iluminava a escuridão em lampejos, lembrando da luz que não se via mais por trás da nuvem de chuva. O estrondo da luz que rompe a tempestade faz pulsar o coração, e mostra, ao longe, que aos poucos as nuvens se desfazem com a brisa suave. Ainda é fraquinho, mas sopra, e continua, firme, preciso. Percorre as rebarbas da escuridão, sopra o temporal pro mar. E continua na sua missão - ele, um vento... o tempo! Chega soprando de leve sem a gente perceber. Devagarinho as nuvens foram clareando, e que surpresa, os passarinhos já cantavam. Uma e outra flor desabrocharam, curiosas, aproveitando a trégua da noite. Não falemos da escuridão, mas como ficam belas as nossas flores quando são iluminadas pelo sol! As sombras vão embora, o verde volta a governar. O céu azul é o mesmo que tens aí, pertinho de ti. Eu consigo ver de longe! E sem as nuvens pesadas e carregadas de chuva, mesmo quando o dia se recolhe e a noite traz a escuridão, o céu se completa de estrelas, essas mesmas, que também olhas. Isso tudo porque o tempo continua seu caminho, ele que é mais forte que todos nós. E o tempo vai continuar, ele não pára... e vai, que Deus permita, me marcar ao longo da viagem... vou envelhecer, aproveitar esta terra, esta escola, e por todo o meu caminho, levarei dentro de mim a lembrança presente desses olhos marcantes, que tanta coisa devem ter visto depois da tempestade. O frescor da tua juventude vai preservar tua beleza intacta na minha memória. Lábios cor da rosa, cabelos cor do ébano, pele branca como a neve. A descrição de uma princesa, de uma menina, dos sonhos de menina que me acompanharão ao longo da vida. A delicadeza dos teus gestos, o sorriso que se entrega, a confusão. A nossa cumplicidade, os segredos que me cofiastes, o carinho, o amor. A adoração que tinhas por mim, minha amiga, que lembrança valiosa. As nossas conversas sem fim. Os teus apelos, os meus consolos. A tua rebeldia, a tua culpa, a tua carência. O teu sonho. Os teus. Querida, nada disso vai enfraquecer com o tempo. Estará tudo em mim, guardado, cuidado. Lembrança de um início de juventude, alegre, feliz, inesquecível, que não faz parte do meu passado, faz parte da minha vida. Tua trajetória de cometa me atingiu em cheio, me fez cair de joelhos. Diante de mim, a evidência: de que é feita esta vida senão da vida bem vivida? Arrumei o leme do barco, apontei pro amor. Ah, coragem, que me falta... Fé, tolerância. A vida está aqui ao redor! Tu me ensinaste tanto, talvez como nunca mais ninguém mais. Obrigada por gostar tanto de mim, e por ter me ensinado tantas coisas. Esforço-me todos os dias para viver a felicidade que tu encontravas em tudo. O tempo vai me transformar, mas a menina Bruna vai me acompanhar até o sempre.

domingo, 28 de setembro de 2008

Perto do mar nasceu Carolina

Por entre as pedras, a menina corria enquanto seus cabelos seguiam os cantos do vento que vinha do sul. Seus olhos viam o carmim do céu quando poente, que pouco depois, cravado de estrelas, faziam pensar a menina o que eram os pontos de brilho que refletiam nas águas da baía. Seus dedos aprenderam o doce compasso que desenhava os trilhos brancos e engomados que enfeitavam a casa de sua mãe. Andava pela praia e sentia nos pés nus o frio da água plácida, que nutria os peixes que nutriam a todos daquele lugar. O sol, quando baixo, coloria os verdes e os azuis que contornavam a rua desgastada pelos carros de boi, por onde Carolina passava. O dia nascia calmo e morria calmo. Nas janelas, as mocinhas observavam a tarde passar, longa que era, trazendo consigo o aroma do café da hora. Os olhos de Carolina viam os temporais, que lavavam o mar e a alma daquela gente simples. O mar de prata fazia doer os olhos da menina, quando mirava para detrás da Ilha do Largo se o sol ainda era o do meio do dia. Via as gaivotas sobrevoando o pescador, e o ruído calmo da marola, como que beijasse as pedras. Desconhecia as mazelas do mundo, a fome por ali não havia. O rádio trazia as notícias da guerra para a casa de poucos. Não tinha medo, a Carolina, que conhecê-lo foi quando as vozes que a perseguiam ainda não se faziam compreender. As orações da santamadre e os cortejos não aliviavam suas agonias, e ela mal sabia que as seguiriam durante a vida. O medo deixou seu lugar para as ladainhas do nosso Senhor, que a menina Carolina faria valer como as outras benzedeiras. Tão logo havia crescido a Carolina, e já era a do Manoel. A moça dos parcos sorrisos trajava cedo o seu vestido de despretenciosos cortes, e dava de comer às galinhas, antes do sol despontar. Do ventre delgado da Carolina nasceram duas crianças, mas seu coração amou outra além. Vivia na lida do dia enquanto o Manoel consertava alguma coisa aqui e ali, ou deslisava suas mãos calejadas das canoas e dos formões sobre o violão. A tarde custava a findar, mas a noite sempre chegava com as janelas fechadas e o calor da água no fogo, a requentar a panela com as ostras para a farinha e o café passado que já repousavam sobre a madeira da mesa. Passaram-se os anos, e foram tantas as décadas. Os filhos de Carolina são velhos. Manoel escapou do já exausto corpo que o abrigara tantos anos, havia pouco tempo. O coração aperta de dor, e ainda produz lágrimas os olhos da velha Carolina - olhos que falham e irritam Carolina. Senta frente ao verde da parede de onde passou a vida e roga a Deus que se lembre dela. Já chega dessa vida. Viu tanto e viu nada, a Carolina. O mundo atrás do Cambirela, e tudo o que acontenceu lá enquanto ela tecia os trilhos brancos, não perturbaram a calmaria da freguesia bucólica. Que pode mais querer a Carolina, que se mira no espelho, face seu semblante sério e doce, mas não vê a pele marcada pelo tempo. A idade lhe consumira o vigor da vista, que consumia a paciência da velha Carolina. Ela que aprendeu a rezar tão cedo, a menina que conhecia os mortos, quer passar para o lado deles. Eles, que a acompanharam durante a vida. Já basta, é o que pensa a Carolina. Perto do mar nasceu Carolina. Perto do mar quer morrer Carolina.

sábado, 27 de setembro de 2008

Sobre amar-te

De outros amores eu tentei tirar o verso, mas não nos vi naquelas linhas. Parei e pensei... e lembrei... Lembrei do que não esqueço nunca. Lembrei que te olhei mas não vi... mas ao cair da tarde eu te toquei: e tudo já estava aqui. Eu te guardei só pra mim, e eu sofri. Eu chorei, eu enlouqueci. Eu quase morri. Eu me esqueci. Mas eu tanto quis que mereci! Os olhos brilhantes ali, miravam diferente, enfim! Não pensei, a certeza há muito me acolhia. Agora as estrelas brilham só pra mim, a luz que ilumina esse mundo inteiro.. que percorre o céu e destrói a chuva, que desabrocha as flores e protege o meu sorriso e a minha dor. Minha bênção e meu medo. És a minha escolha e a minha sorte, e o paraíso é em qualquer lugar, desde que os olhinhos estejam ali para olhar, segurando a minha mão. Tudo em mim vale se a luz iluminar, e que Deus me perdoe pelos dias vazios quando brilho não há... Reconheço enfim, quem amou como nós, não importa a cor do céu e para onde o vento sopre: eu "não quero ser... sem que me olhes".

Intrusa


E se eu negar o mundo, mergulhando para o lado de dentro, no meu silêncio particular? Se despir-me das sensações da luz, isolar-me por segundos, abrigar-me por trás desse véu desconhecido onde o tempo não perturba.. Onde eu chego? Que lugar é este, onde sou leve, e o pensamento me faz voar? Percorro as entranhas do passado, revivo alegrias, reencontro sentimentos e volto, de repente, para o meu silêncio particular... Será que assim, atirando-me sem pudor, ganho asas, subo aos céus, e, surpresa ao te encontrar, de longe, para aliviar a dúvida, para acalantar a incerteza e acalmar o coração... será que ainda somos iguais? Cercariam-me estrelas, figurariam os anjos o sorriso de ternura do momento especial, do encontro de dois mundos... Dois mundos? Mas não somos iguais? Tu és feita de luz, tens o tamanho dos teus pensamentos... Tens as respostas, tens o vento que te leva. Tens a vida, e o medo não é mais teu. Tens a certeza, eu tenho a fé. Vivo feliz em minha prisão, aqui eu quero tudo o que tenho... Cercada pelas flores que cuido com tanto amor, não quero deixar esse jardim... Mas sei que longe daqui, onde meus olhos não alcançam, quando me elevo e fujo, lanço-me ao infinito, no meu silêncio particular, como aquela que não é chamada, que não foi convidada... que foi porque quis... que teme essa ousadia e que logo fecha a porta... antes que se apague o caminho da volta. Será que esta também é minha casa? Percebo teus sentimentos, fantasio a tua presença e volto ao silêncio de dentro de mim. O mundo ainda atrás da escuridão... Que caminhos ainda nos unem, o que é isso que sobra e que a terra não consome? O que é isso que sobe pelo ar, atravessa as dimensões, e reencontra a existência? Como o cego que vaga nas percepções, eu te sinto perto, te sinto em mim, mas te sinto longe, muito além da fronteira, distante, diferente, resultante. Será que isso é só meu? Ou será que me observas a tatear o meu redor, a rastrear os teus vestígios, a te buscar nos teus amores? Será que sabes que rogo aos céus que luz te alcance e que ilumine teus passos? Que sigas em frente.. mas que não te esqueças daqui, pois muitas são as estações, mas nesta deixastes um pouco do teu coração. Tu que hoje sabes o que há atrás da porta, como te portas, o que conversas, quem te cativa? O que tu queres, o que tu sentes? Qual tua rotina? O que de ti vive em mim, o que de mim está aí? O que mudou? Eu volto ao meu lugar, ao meu silêncio particular... quebro a escuridão que cuidei a me cercar. Reconheço-me em minha prisão, que me acolhe, tão feliz, e deixo de ser a intrusa, que te busca no infinito, mas cujas asas.. nada podem ajudar. Voa, minha amiga, voa alto, eu ficarei aqui cuidando do meu jardim... não tenho asas para te acompanhar. Mas se, de repente, tudo se esconder atrás do escuro, voe no meu silêncio, leva-me contigo a entender a vida, deixa eu chegar bem perto e agradecer. Deixa eu tocar o céu, ver a luz irradiar, a saudade libertar e quebrar a escuridão. O encontro se desfaz. Não pertenço a este lar. Mas sei que estou um pouco aí, neste coração que voa alto, voa longe, e encontra abrigo no meu peito nos unindo para sempre nesse mundo de dois lados... nessas moradas iluminadas pela mesma luz. Volto ao jardim contrariando a canção: dessa vez não vou chorar. Este é o meu lugar. Até quando Deus quiser. Peço a ele, então, que a tristeza se vá... que deixe esse lugar, que mude e se transforme, tome forma de saudade e que mais uma flor se torne...

Versifica!

"No tengo a quien rezarle pidiendo luz,
Ando tanteando el espacio a ciegas.
No me malinterpreten,
No estoy quejándome.
Soy jardinero de mis dilemas".


Penso sobre o que faz tudo valer. Não falo de mim, aqui há acesa a certeza do futuro e um vestígio de resposta. Refiro-me aos infelizes, aos incrédulos, aos egoístas, aos ignorantes. Que triste o véu sobre os olhos daqueles que não duvidam! Cerram a visão e seguem, pobres, na miséria do animal que nos abriga. Sobrevida no extinto, obediente à fome e à perpetuação. O quanto faço parte disso? Muito, demasiadamente mais do que minha percepção aceita. Que dúvida, meu Deus, que dúvida percorre meu pensamento... esse desejo de não estar em falta com o que devo ter me prometido, a culpa precipitada e a vergonha do que o passado tem atrás da neblina espessa do esquecimento. Miserável dúvida, que nem ao menos se iguala aos semelhantes. Que Deus me perdoe a soberba que habita minha consciência, que se apresenta naturalmente, desavergonhada. Ri da imagem que vê diante de si: pobre criatura que acha que sabe aguma coisa. Perdão, meu Deus, eu que faço parte de um de teus grãos, que tenta entendê-lo e mensurá-lo, em vão. Diante da dor de tantos, que não seja o que mantém a chama aquilo que a intuição manda fazer pela recompensa. Que eu encontre a resposta para a grande dúvida... Em meu peito, o desejo de que aqui habite o bom - pelo menos um rascunho. Minha alma errante roga pela melhora do entorno. Gente igual a mim, que o amor possa nos expulsar de nós mesmos, e que nasçamos ainda, o quanto for necessário, até que, plácidos, sejamos dignos de começar a caminhada.
Versifica, é o auto-conselho. Torna belo o teu sofrimento. Joga-te sobre tua imagem, e te reconhece do tamanho que és. O infinito nos pertence e meu pranto é de gratidão.